'Uma parcela da população está descrente com o processo democrático'
Na semana do primeiro turno, Cientista político aponta motivos para alta da abstenção eleitoral
, atualizado
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O Brasil vai às urnas neste domingo para a escolha de representantes em seis cargos. O sociólogo, cientista político e professor José Elias Domingos analisa o ânimo com que o eleitor deve exercer esse voto, a influência da vez maior das redes sociais nessa decisão e as característica do eleitorado em Ribeirão Preto.
Jornal Ribeirão - Faltando poucos dias para o primeiro turno, a dinâmica da campanha costuma mudar. Qual é o retrato do eleitorado neste momento final e o que costuma definir o voto daqueles que deixam a escolha para a última hora?
José Elias Domingos - A última semana costuma ser muito estratégica. Primeiro, porque muitos eleitores deixam para definir, de fato, na última hora. Essa questão de você ter que selecionar um candidato de última hora é normalmente atrelada àquele eleitor que terceiriza a sua decisão. Então é aquele eleitor que decide: Opa, eu não fiz uma análise profunda de quem, efetivamente, vai se engajar politicamente para transformar a realidade —, então eu vou eu vou terceirizar a minha decisão.
Ele cria certos atalhos mentais para poder votar. Muitos eleitores acabam também entrando no que a gente chama de "efeito manada". Eles vão tendo como referência o clímax político na última semana. Por isso que a última semana antes do primeiro turno ela é extremamente relevante.
Então o voto útil ele é muito decidido também na última semana: "Eu vou votar naquele candidato porque eu sei que ele tem mais chance para derrotar aquele outro que eu não gosto". Então esse voto útil ele é extremamente relevante.
E também tem um outro detalhe que eu acho que é importante frisar, que é a questão do da rejeição. Normalmente, às vésperas do pleito, muitos eleitores eles, para evitar o pior, vamos dizer assim, eles acabam aderindo programaticamente e até de maneira pragmática, a certos candidatos, porque eles já têm mais ou menos uma noção de como que vai ser como que vão ser os resultados nas urnas a partir das pesquisas que estão sendo levantadas.
As taxas de abstenção têm sido um desafio em pleitos recentes. O que a ciência política aponta como principal causa dessa ausência nas urnas e qual é a sua expectativa quanto ao comparecimento neste domingo?
A abstenção no Brasil vem crescendo. Nos últimos três pleitos, inclusive, em âmbito nacional, as abstenções cresceram. E no segundo turno, as abstenções costumam ser num percentual maior do que no primeiro, salvo o que aconteceu em 2022 por conta da questão da polarização. E essas abstenções, elas têm explicações que são mais conjunturais. A pessoa tem dificuldade para se deslocar, a pessoa acabou não transferindo o seu título de eleitor, a pessoa não tem candidatos.
Mas tem também aquele tipo de abstenção que é atrelada com o que a gente chama de alienação eleitoral. Que é para os casos onde, efetivamente, uma parcela da população está totalmente descrente com o processo democrático representativo e com esse sistema partidário altamente fragmentado, além da política fisiológica e personalista.
E muito do que a gente vê recentemente, pelo menos nos últimos 12 anos, que foram essas empreitadas extremistas, elas colaboram para afastar aquelas pessoas que até poderiam enxergar um pouco de racionalidade nesse processo eleitoral.
Ribeirão Preto e os municípios vizinhos enfrentam historicamente o desafio de eleger representantes diretamente ligados à região. Qual é o impacto da pulverização de candidaturas locais para a representatividade política da nossa região?
O Estado de São Paulo demanda muito por conta desse coeficiente eleitoral. Isso significa uma quantidade massiva de votos. Então, aproximadamente aí 280, 300 mil votos para uma legenda conseguir colocar, por exemplo, um deputado.
Então, a região de Ribeirão Preto, como possui uma municipalidade muito ativa, mas ao mesmo tempo muito fragmentada politicamente, existem vários candidatos que se propõem a representar a região. Quando a gente vê uma região com essa fragmentação político-partidária, dificulta muito aqueles candidatos locais conseguirem atingir esse coeficiente.
E tem um outro detalhe que é fundamental. A região acaba não elegendo muitos candidatos que representem os seus interesses. E se ela não consegue fazer uma bancada expressiva, por exemplo, na Alesp e no Congresso Nacional, a região acaba perdendo essa capacidade de articular politicamente emendas parlamentares. E isso inviabiliza, às vezes, a construção de hospital, infraestrutura, mobilidade, etc.
Ribeirão Preto é uma cidade marcada por forte pluralidade socioeconômica. É possível mapear padrões comportamentais de voto divergentes entre as zonas periféricas e os bairros de maior renda nestas eleições gerais?
A questão do comportamento eleitoral envolve questões socioeconómicas. Ela é espelho de uma clivagem espacial que é característica de grandes cidades brasileiras. A geografia urbana reflete muito, principalmente em relação à estratificação de renda.
Para eleitores de bairros mais nobres, a tendência é um voto mais ideológico e, normalmente, voltado ao conservadorismo, ao liberalismo político, à adesão de pautas e defesa do agronegócio e a questão do empreendedorismo.
As zonas periféricas, principalmente a região norte, noroeste, o que a gente vê é uma análise mais difícil de ser feita. É um voto mais retrospectivo, vamos dizer assim. Esse eleitor analisa muito a questão das condições, de melhorias da sua vida. Então tem uma pegada de dimensão social. Candidaturas que defendem, por exemplo, serviços públicos têm mais capilaridade.
Mas tem um detalhe curioso que a gente tem observado na ciência política: nesses bairros periféricos há um grande avanço significativo das igrejas neopentecostais. Então, muitos desses eleitores, eles acabam tendo aderindo a essa chamada onda conservadora popular e acabam direcionando os seus votos, ao que a gente chama de voto de valor. Pautas morais, religiosas, etc. Então, é uma disputa muito grande hoje desses eleitores que vai nessa dualidade do voto moral e do voto de costumes, mas também do voto de demandas sobre políticas públicas para transformar a realidade.
Sentimos uma transformação na forma como a população participa das campanhas — menos presença nas ruas e mais interação (ou ruído) nas redes sociais. Como essa mudança impacta a conexão real entre candidatos e eleitores?
As mídias sociais, claro, potencializaram a maior difusão de acesso à informação. Mas também elas têm uma contrapartida que é a possibilidade, às vezes interessante, mas às vezes não, de qualquer pessoa não ser somente uma receptora de conteúdo, mas passar a ser uma produtora de conteúdo. E a pessoa ser uma produtora de conteúdo é uma pessoa que às vezes acaba replicando determinadas informações para os seus grupos e bolhas, o que a gente chama de bolhas de desinformação.
Por conta da possibilidade de você fazer recortes em rede, por conta da possibilidade de você distorcer falas, de criar imagens falsas é curioso porque essa transformação da saída das ruas pro computador, ela potencializou as forças dos algoritmos.
Então esse engajamento, ele é mais frequente das pessoas, claro, porque elas têm mais acesso à internet. Só que eu acho que existe uma falsa ilusão de proximidade com o candidato. É uma proximidade quase que performática.
Quando o político tinha o contato das ruas, o candidato no caso, tinha que ouvir demandas locais que às vezes eram heterogêneas. Ele tinha que, obrigatoriamente, lidar com o contraditório. Nas redes sociais, a intermediação é muito mais camuflada, tem equipe de marketing, você consegue filtrar aquilo que vai chegar para você, e você consegue selecionar o seu eleitorado.
Então, o espaço público que a gente entendia como uma audiência, era auditável por todos. Nas redes sociais o que a gente percebe é uma segmentação. Não dá para saber efetivamente, dentro desses filtros. o que é de verdade e o que não é. Isso tem um efeito perverso para a democracia.
Hoje, o que se observa muito, é uma política da impulsividade e também uma política da rejeição. É aí que a o voto pela rejeição vai ser muito decisivo nessa eleição, principalmente em âmbito federal.