Cristiano Pavini: 'A Sevandija precisa terminar'

Autor de livro sobre a operação fala sobre prêmio conquistado e reflexos da apuração

, atualizado

Compartilhar notícia

Pavini (à dir.) recebeu o prêmio no Theatro Municipal de São Paulo
Pavini (à dir.) recebeu o prêmio no Theatro Municipal de São Paulo - Foto: Divulgação
Pavini (à dir.) recebeu o prêmio no Theatro Municipal de São Paulo - Foto: Divulgação

O livro Sevandija, escrito pelo jornalista Cristiano Pavini, conquistou o segundo lugar na categoria Jornalismo Local da 6° edição do Prêmio Integridade do INAC (Instituto Não Aceito Corrupção). A premiação é uma das mais relevantes na temática no país e foi realizada no Theatro Municipal de São Paulo.

O livro Sevandija foi publicado no ano passado e tem 424 página. Prestes a completar 10 anos, a operação ainda causa impactos na política de Ribeirão Preto. Nessa entrevista ao Jornal Ribeirão, Pavini fala sobre esses reflexos e a premiação conquistada.

Receber o reconhecimento de 2º lugar na categoria Jornalismo Local do Prêmio Integridade do INAC é um marco importante. Como esse prêmio consolida o trabalho de documentar a Operação Sevandija?

Esse Prêmio de Integridade do INAC, que já está na 6ª edição, é um dos principais do país na temática de integridade e combate à corrupção. Então, muito me honra essa colocação.

Eu concorri com um capítulo do livro da Operação Sevandija que é justamente o capítulo em que eu narro a ascensão financeira do Marcelo Plastino. Como ele ascendeu com os contratos de terceirização na Prefeitura de Ribeirão Preto. E esse prêmio, ele é consolidação de o que foi a cobertura da Operação Sevandija, o que ela representou à época, quais são as práticas de corrupção existentes e que são comuns entre os municípios brasileiros, e também mostra quais são os acertos e erros de uma ação dos órgãos de controle. No caso aqui de Ribeirão Preto, do Ministério Público e da Polícia Federal, para o combate à corrupção."

De que forma o livro Sevandija preenche lacunas que o noticiário diário da época, pela correria da cobertura diária, não conseguiu aprofundar?

A operação rendia fatos diários. Então, você tinha todo dia os veículos de comunicação abordando temáticas que iam desde novos documentos que eram disponibilizados nos autos, ações, mandados de busca, apreensão e prisão que eram cumpridos, as audiências no fórum, vazamentos, enfim. Então, todo dia você tinha essa avalanche informacional. O livro é publicado em 2025, nove anos depois da deflagração da operação, então ele permite ter um olhar mais cronológico, tanto nos fatos criminosos quanto nas etapas, contextualizando com o cenário político local. Porque, lembrando, ela ocorreu em meio a uma campanha eleitoral. Então o livro aprofunda as investigações, o que não era possível fazer à época, muitas vezes, na cobertura diária, e também traz um olhar mais descansado e contextualizador.

O escândalo marcou profundamente a história recente de Ribeirão. Na sua avaliação, a cidade conseguiu se reconstruir institucionalmente após o desmantelamento do esquema ou as lições ainda não foram aprendidas?

Ribeirão aprendeu muito com a Operação Sevandija, mas ainda tem muito a implementar para se blindar cada vez mais das tentativas de apropriação indevida do erário público. Você teve avanços pontuais, como a publicização dos nomes das pessoas que são terceirizadas, e esse era um dos esquemas. Você teve a criação de uma Controladoria-Geral do Município, que é um órgão de controle interno que deve ser utilizado justamente para a prevenção. Mas ainda tem muito que avançar. A Prefeitura ainda não tem uma transparência que seja exemplar. Então, se peca muito na transparência das informações. A própria Controladoria ainda não tem a robustez necessária tanto para auditorias quanto justamente para proporcionar a transparência e a participação popular. E você tem nesse contexto novas formas de corrupção que sempre aparecem no Poder Público. Então, acho que Ribeirão Preto conseguiu, em certa medida, avançar perante o que foi demonstrado lá atrás, mas ainda não avançou a contento para conseguir se blindar de novos potenciais ou possíveis atos de corrupção que estejam ocorrendo ou que venham a ocorrer."

O Prêmio do Instituto Não Aceito Corrupção destaca a relevância da imprensa do interior. Qual é o papel do jornalismo regional no combate à corrupção?

Muitas pessoas consideram o jornalismo local ou regional como uma categoria de menor valor do jornalismo, como se a imprensa nacional fosse a mais relevante e a local tivesse um nível de hierarquia abaixo. Isso é absolutamente incorreto. O jornalismo é imprescindível: o jornalismo nacional e o jornalismo local. E a imprensa é essencial para se detectar casos de ilícitos ou mau uso dos recursos públicos e estimular que os órgãos de controle — Tribunais de Contas, Ministério Público — ou o próprio poder, a própria administração pública, no caso prefeitura e Legislativo, adotem as medidas necessárias. Então, essa premiação, ela justamente incentiva que o jornalismo local, que sempre encontra muitas dificuldades, possa continuar exercendo sua função essencial.

O que você espera que o leitor de Ribeirão Preto sinta ao terminar a leitura de Sevandija?

O livro, e eu ressalto isso no prefácio, é uma versão minha dos fatos. É uma versão que buscou, praticamente exaustivamente, se aproximar ao máximo da realidade, porque ela tá amparada na análise de dezenas de milhares de documentos, entrevistas com mais de 50 pessoas e nos fatos que eu vivenciei à época cobrindo essa operação. Mas eu entendo que a realidade, ela é inalcançável. Você tem sempre fragmentos da realidade. O leitor que terminar de ler, espero que ele encontre fragmentos que possam compreender o que ocorreu com Ribeirão Preto há 10 anos. E nós temos agora, é importante ressaltar, uma geração que não vivenciou a operação. Em palestras que eu dou em universidades ou em encontro de estudantes de Jornalismo, de Direito, que não se recordam desses fatos, que eram muito jovens à época. Então, quem lê a obra, eu espero que consiga entender o que ocorreu lá atrás, que possa compreender como foi danosa aquela estrutura para a população.

As ações penais da operação estão suspensas por conta do imbróglio sobre a validade das interceptações telefônicas, mas o tema segue relevante para a política local. Você acredita que a operação será tema, de alguma forma, da disputa eleitoral deste ano?

É essencial que a Operação Sevandija chegue ao fim. Ela está estacionada há três anos pela controvérsia das interceptações telefônicas. Essa é uma espera que é injustificável. Então, pela validade ou invalidade delas, a Sevandija precisa terminar. Seja mantendo as interceptações e aí com o prosseguimento das ações penais, com o julgamento definitivo, com o trânsito em julgado desses processos para que as pessoas condenadas sejam responsabilizadas penalmente, para que aquelas pessoas inocentadas possam retirar isso das suas costas, e para que o erário público possa receber todos os recursos que foram bloqueados. Nós temos um caso muito emblemático, que eu listo no livro, que é o apartamento milionário do Marcelo Plastino, onde ele inclusive se suicidou, na (avenida) João Fiúsa. E esse apartamento, ele tem eh acúmulos sucessivos de condomínios e e etc. Então nós temos hoje o risco da depreciação desses bens que deveriam ser revertidos para o erário e também da impunidade, com a prescrição de penas de pessoas que potencialmente seriam condenadas".