'Nada apaga o sofrimento dela'
Priscila Caetano Moura, mãe da menor chamada de "macaca" por professora da rede municipal, revela alívio com condenação definitiva, mas vê problema estrutural no acolhimento a vítimas de racismo na rede municipal de Educação
, atualizado
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A condenação definitiva da professora Zanália das Graças Carneiro por injúria racial, cometida em sala de aula, em 2022, trouxe sentimentos diversos para Priscila Danielle Caetano Moura, mãe da menor negra chamada de "macaca" pela pedagoga. Após viver na pele os momentos difíceis depois do ocorrido - que incluíram ver a filha se recusar a ir para a escola e a tentativa da administração municipal em minorar o problema - ela relata alívio com o desfecho criminal do caso.
"Eu me senti aliviada, porque parece que foi feita justiça, sabe? Parece que agora ela vai entender o que fez", afirma a mãe da menor, que ressalta, entretanto, que o episódio provocou sofrimento profundo na família e deixou marcas emocionais que permanecem até hoje.
Segundo ela, a dor foi agravada pelo fato de a situação ter ocorrido justamente dentro do ambiente escolar, local onde acreditava que a filha estaria protegida. "É um sentimento de impotência, sabe? Porque a vontade da gente é fazer o que não pode fazer".
Nessa entrevista exclusiva, ela conta a rotina da família, o sentimento de desamparo em relação ao poder público e a sensação de alívio com a condenação. Confira a íntegra.
JORNAL RIBEIRÃO: Como foi viver tudo isso, sendo mãe?
PRISCILA DANIELLE CAETANO MOURA: Passar por isso foi um momento muito difícil na minha vida. Ver minha filha sofrer preconceito causa muita dor e indignação. É um sentimento de impotência, sabe? Porque a vontade da gente é fazer o que não pode fazer.
Nunca imaginei passar por uma situação assim, principalmente em um lugar onde ela deveria estar segura e acolhida. Era uma professora, dentro da escola. Eu achava que lá ela estaria bem e protegida. E acontece um tipo de situação como essa.
A família recebeu apoio durante o andamento do caso?
Em alguns momentos, tivemos bastante apoio, sim, durante o andamento do caso. Mas acredito que ainda há muito a melhorar no acolhimento das vítimas de racismo.
As famílias precisam de mais orientação, apoio psicológico e agilidade nas respostas, porque se passaram anos após o acontecido. Lógico que a Justiça tarda, mas não falha. Mas acho que isso poderia melhorar.
Considera que a prefeitura agiu corretamente? Faltou ação do poder público?
Posso dizer que o processo todo foi muito complicado. Havia gente interessada em resolver o problema, mas também enfrentamos a omissão. Era nítido que não interessava a todos que o caso caminhasse.
Tivemos que acompanhar o processo e forçar para que as investigações avançassem. E, na esfera da prefeitura, a professora até hoje só foi suspensa por 15 dias. Acredito que a punição foi muito pequena, tanto que ela foi condenada criminalmente, o que é muito sério. Então, acho que faltou ação da prefeitura em relação à professora. Espero que isso mude e que não exista o próximo caso.
Como recebeu a notícia da condenação definitiva?
Eu me senti aliviada, porque parece que foi feita justiça, sabe? Parece que agora ela vai entender o que fez.
Lógico que nada apaga o sofrimento da Lívia, mas a decisão mostra que atitudes racistas têm consequências. Ela era professora, não podia ter feito isso.
Esse tipo de crime não pode ser tratado com normalidade. A gente vê muitos casos acontecendo e não pode deixar impune.
A Lívia ainda sente os efeitos do que aconteceu?
Já passou muito tempo, mas eu ainda sinto que ela carrega alguma coisa disso. Ela segue em frente, continua se desenvolvendo, mas existem situações que deixam marcas.
Ela recebe muito apoio em casa, dos avós, da minha mãe e dos amigos, e isso é muito importante.
Recentemente, ela presenciou um colega da escola fazendo ofensas racistas e chamou a atenção dele. Ela disse: "Não faz isso, eu já passei por isso e é muito ruim".
Quando ela me contou isso, com os olhos cheios de lágrimas, percebi que ainda existe uma dor ali dentro. Mas agora, com a condenação e a sensação de justiça, talvez a gente consiga deixar isso para trás.
Como é a rotina da família hoje?
Nossa família é tranquila, bem simples. Moramos no Parque Ribeirão. Eu trabalho em uma clínica odontológica e meu marido é motorista de caminhão.
A Lívia e a Heloísa, irmã mais nova dela, estudam em período integral. Elas gostam muito de ir à escola, andar de bicicleta e passar tempo na casa dos avós.
A Lívia tem dois porquinhos-da-índia que adora. Já a Heloísa gosta de cachorro grande. A gente leva uma rotina normal, simples. No fim de semana tomamos nossa cervejinha, agora elas estão de férias e dormem tarde porque adoram isso.
O que espera que fique de aprendizado após o caso?
Acho que a coisa positiva que conseguimos tirar disso foi a visibilidade do que aconteceu.
Espero que esse caso, agora que voltou à discussão depois de anos, ajude outras pessoas a falarem. Tem muita gente que passa por isso e deixa para lá.
Também gostaria que as escolas reforçassem o respeito, a inclusão e a educação antirracista, para que outras crianças não passem pelo que a Lívia passou.
Hoje conseguimos superar muita coisa, mas, quando aconteceu, foi muito triste.