Luiza Romão: 'Cada livro é aprender a escrever de novo'

Escritora e atriz estreia no universo infantil com uma obra inspirada no amor pelo futebol

, atualizado

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A escritora, atriz e pesquisadora Luiza Romão, nascida em Ribeirão Preto e vencedora do Prêmio Jabuti de Livro do Ano em 2022, acaba de lançar seu primeiro livro infantil. Publicado pela Editora Quelônio, "Ontem Vi Meu Pai Chorar" já está disponível para venda e apresenta uma história que une futebol, relações familiares e descobertas da infância.

Apaixonada por futebol desde a infância, Luiza cresceu frequentando o Estádio Santa Cruz, experiência que ajudou a construir o universo do livro. Depois de se mudar para São Paulo, passou a acompanhar os jogos do Palmeiras, ampliando sua relação com o esporte, tema que também atravessa sua pesquisa acadêmica e parte de sua produção literária.

Com ilustrações de Silvia Nastari, diretora de arte da Editora Quelônio, a obra utiliza colagens, imagens digitais e referências visuais inspiradas em fotografias, jornais e documentos históricos, criando uma atmosfera que remete ao futebol dos anos 1970. Em entrevista ao Jornal Ribeirão, ela fala sobre o seu processo criativo e a migração para o universo infantil.

Jornal Ribeirão: Ganhar um Prêmio Jabuti consolida o nome de qualquer autor no Brasil. Você sentiu algum tipo de pressão extra ou "frio na barriga" ao estrear em um gênero completamente novo após esse reconhecimento?

Luiza Romão: Pra te ser sincera, não. Como grande fã de futebol, entendo que quando um campeonato começa, o placar é zerado. Pouco importante os títulos do passado, os livros que já foram escritos. Cada jogo é jogado no instante-agora, cada livro é aprender a escrever de novo. Como disse Javier Marías, esta ancoragem no presente, no jogo de hoje, mais do que no passado de glórias ou frustrações, incita torcedores e jogadores ao "esquecimento o que equivale dizer que o futebol jamais incita ao rancor, algo que só se aprende na vida adulta". Pra mim, isso é um grande norte.

Você acha que o público que te acompanha na poesia adulta vai se surpreender com o livro infantil, ou existem fios invisíveis que conectam essa nova obra ao seu trabalho anterior?

Com certeza há muitas relações entre o Ontem vi meu pai chorar e meus livros anteriores de poesia: a discussão de gênero, o desejo de pensar questões sociais (neste caso, o futebol como símbolo da cultura de um país), entre outros temas. Há continuidades e também idiossincrasias. Além disso, por mais que o Ontem seja uma narrativa voltada à infância, também convido as pessoas adultas à leitura e a se emocionarem.

As crianças têm uma relação muito genuína e livre com a linguagem. O que você precisou desaprender na sua escrita adulta para conseguir escrever para elas?

Foram muitos aprendizados, mas acho que o principal foi a capacidade de síntese. Encontrar as palavras e expressões mais precisas, concentrar cenas longas em poucas linhas, dizer apenas o essencial, explorando o máximo possível aquilo que já está sendo dito nas imagens e ilustrações.

Como nasceu a história de "Ontem Vi Meu Pai Chorar"? Houve algum estalo ou memória da sua própria infância que serviu de ponto de partida?

Olha, foi um estalo! A ideia surgiu durante uma viagem de carro entre Tiradentes e o Rio de Janeiro. Eu estava voltando de um evento literário com dois autores que admiro muito. Ambos escrevem para infância e juventude e acho que nosso papo destravou alguma parte do meu cérebro. Quando fechei os olhos pra descansar um pouco das curvas da estrada, pimba, o argumento me veio inteirinho. Lembro que cheguei cedo no aeroporto, abri o computador e até a hora do embarque escrevi a primeira versão do livro. Mas apesar deste momento epifânico, acredito que essa história já estava sendo gestada a muito tempo na minha cabeça, atravessada pelas experiências que tenho como torcedora, pelas memórias de jogos com meu pai, pelas vivências no estádio Santa Cruz e na Rua Caraibas.

O livro infantil é um trabalho de dupla face: o texto e a ilustração. Como foi a sua interlocução com quem ilustrou o livro? Você já escrevia pensando no visual ou as imagens te surpreenderam?

Exatamente. Na literatura infantil, é impossível separar palavra e imagem. As histórias nascem do encontro das duas linguagens. No caso do Ontem vi meu pai chorar, eu e Silvia Nastari (que assina tanto as ilustrações quanto o projeto gráfico do livro) dialogamos bastante para chegar na versão final. Foi uma troca linda que me ensinou muito sobre escuta, criação em conjunto e narrativas para a infância! A Silvia propunha imagens a partir do texto e depois, a partir das ilustrações, eu reescrevia as cenas, editava, cortava algumas passagens, ressaltava outras. Foram diversas idas e vindas até o livro ficar pronto!

Hoje em dia, disputar a atenção das crianças com as telas é um grande desafio. Na sua visão, qual é o superpoder que o livro impresso ainda tem para encantar os pequenos?

Sem dúvida, a própria materialidade do livro: poder pegar no objeto, sentir seu cheiro, seu peso, mudar de página e até intervir com dobras na pontinha do papel, o nome anotado e por aí vai. Sem falar que o livro, ao contrário da tela, convida à leitura em conjunto, a partilhar desta experiência com pessoas queridas. É uma tecnologia que sobrevive há milênios!