'Não sei fazer humor que acaricia'

Josú Barroso, chargista e ilustrador, fala sobre sua relação com a comunicação e sobre a liberdade de expressão do pensamento

, atualizado

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Josú Barroso, 44, é dono de traço afiado, autoral e cada vez mais raro no jornalismo: o do humor gráfico voltado à realidade local. Natural de Minas Novas, no interior de Minas Gerais - está há mais tempo em Ribeirão do que em sua terra natal - ele se define, com razão, como ribeirão-pretano de coração.

Foi na adolescência, desenhando colegas e professores em sala de aula, que começou a transformar o impulso do rabisco em caminho profissional — movimento que ganhou força com uma bolsa para estudar na Escola de Arte de Jaboticabal.

Aos 17 anos, já publicava suas primeiras tirinhas no Tribuna Regional, de Itamarandiba (MG). Com formação também em Editoração Gráfica, consolidou uma trajetória de mais de uma década como caricaturista, chargista e ilustrador, com participações em exposições no Brasil e no exterior.

Desde novembro de 2025, assina as charges e tiras do JR, sempre reconhecidas pela acidez e pela crítica à classe política. "Humor que apenas agrada vira ufanismo ou propaganda gratuita. Humor que persegue vira bullying. Procuro sempre o equilíbrio", salienta. Em entrevista exclusiva, falou seu início na arte, seu trabalho e o momento político contemporâneo. Confira a íntegra.

JORNAL RIBEIRÃO: Pra começar, quem é Josú Barroso?

JOSÚ BARROSO: Nasci em Minas Novas, cidadezinha histórica do interior de Minas Gerais. Mas já passei mais tempo em Ribeirão do que na minha terra natal. Sou ribeirão-pretano de coração.Na adolescência, eu tinha a mania de desenhar colegas e professores durante as aulas. Em uma dessas ocasiões, enquanto rabiscava a caricatura de um colega no tampo da mesa, uma professora se aproximou. Quando eu já esperava uma bronca, fui surpreendido com uma bolsa de estudos na Escola de Arte de Jaboticabal.

De lá para cá, participei de algumas exposições pelo Brasil afora, e algumas delas chegaram até a Argentina e a Itália.Em 2020, peguei carona na charge do cartunista Aroeira, que recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo. Na ocasião, a charge foi censurada por criticar a postura do governo diante da pandemia de Covid-19. Como resposta ao cerceamento, reunimos 109 caricaturistas, que replicaram, cada um à sua maneira, a mesma charge. Com isso, o Instituto criou um prêmio especial naquela edição e contemplou todos os 109 participantes.Assino as charges e tiras do JR desde novembro de 2025 e, paralelamente, realizo oficinas de caricatura em espaços culturais e faço caricaturas ao vivo em festas e eventos corporativos.

Como surgiu sua relação com o humor gráfico e com a imprensa?

Minha paixão sempre foi o humor gráfico. Acredito nele não apenas como entretenimento, mas principalmente como instrumento de pensamento crítico e transformação social. Na adolescência, trabalhei na Secretaria de Cultura da minha cidade. Lá, fazia de tudo um pouco, inclusive entregar o jornal que a prefeitura comprava para distribuir junto com seu material publicitário.Uma curiosidade é que sugeri a publicação de cartuns e enviei alguns trabalhos. Eles gostaram e começaram a publicá-los. A partir daí, passei a distribuir os jornais com os meus próprios cartuns, dando os primeiros passos rumo à profissionalização.

Quando cheguei a Ribeirão, corri para o extinto A Cidade com uma pastinha debaixo do braço para mostrar meu trabalho. Pedi para falar com alguém, e a própria dona do jornal, dona Jandyra de Camargo Moquenco, me atendeu. Foi muito simpática e disse que gostou bastante do material, mas já contava com o Maurício de Souza. Resumindo, minha chegada ao mercado coincidiu com a tendência de enfraquecimento da mídia impressa. Mas não desisti. Continuei buscando evoluir, fazendo caricaturas em eventos, freelances para publicidade e outros trabalhos.

Mídia impressa é diferente?

Não sei se é algo da minha geração, mas publicar em mídia impressa tem um charme especial e traz uma sensação muito grande de realização.Sou um entusiasta do jornal impresso. Aliás, no mundo acelerado e virtual em que vivemos, até as novas gerações têm buscado desacelerar, voltando-se cada vez mais para o analógico. Por isso, hoje vejo o bom e velho jornal como tendência, como futuro, e não mais como passado. Estar no time do JR tem sido muito satisfatório. Tenho aprendido bastante com a equipe, que é muito competente e séria. E, embora pareça contraditório, humor gráfico é coisa séria.

Jornal impresso é um mercado cada vez mais restrito. Dá pra fazer charge e tiras no interior?

Com certeza. Talvez seja apenas mais difícil, mas é perfeitamente possível. As tirinhas normalmente abordam temas universais. No caso das charges, em nível nacional, há assuntos infinitos e que atingem a população de maneira mais incisiva. Na esfera municipal, tudo fica mais restrito e, talvez, até mais difícil de compreender, porque muitas vezes nos conectamos com mais facilidade a temas de repercussão nacional. Mas política é política em qualquer lugar, e os políticos sempre nos oferecem matéria-prima.Costumo dizer que não é preciso fazer muito esforço. Eles nos entregam a piada pronta.

Você consegue captar o essencial da política e dar uma roupagem contemporânea, misturando com a crítica, que é necessária. Qual a receita?

O elogio me enche de orgulho. Tenho aprendido muito, de verdade, contigo [Schiavoni] no direcionamento para os temas da cidade. Quase ninguém faz humor municipal. Basta observar os jornais, não só de Ribeirão, mas de qualquer cidade: isso é muito raro. E é raro porque tem menos alcance. E, quando tem alcance, muitas vezes é pouco compreendido. Com isso, também fica mais difícil se expressar.

Eu mesmo estou aprendendo a fazer isso agora. Acho o humor nacional em jornal municipal algo muito genérico: pode ser publicado em qualquer jornal do país, mas não diz nada sobre a realidade da cidade. Gosto de usar exagero, ironia e paródia, entre outros recursos. Na ironia, encontro uma base muito boa para um humor rápido e autoexplicativo. Mas não existe muita fórmula pronta. A cada charge, há uma nova experiência e um novo aprendizado.

Como analisa o cerceamento de liberdade e a patrulha ideológica no teu cotidiano? Isso atrapalha?

Teoricamente, vivemos em um período democrático e de liberdade de expressão. Na prática, a história é outra. Não sei fazer humor que acaricia. Humor que apenas agrada vira ufanismo ou propaganda gratuita. Humor que persegue vira bullying. Procuro sempre o equilíbrio, com muito respeito, porque sei que há muita gente séria na política também.

Hoje, infelizmente, a patrulha ideológica vem mais das pessoas comuns, apaixonadas por políticos e ideologias, que acabam se esquecendo de que, no fim, só existem dois lados: o do povo e o dos políticos, que muitas vezes só ganham dividindo esse mesmo povo.Os poderosos, em geral, já nem precisam defender ideologias com tanto empenho, porque há quem faça isso por eles. Normalmente, agem mais no sentido de cercear a liberdade de expressão.

Mas quem tenta censurar uma charge ou até uma matéria de jornal acaba pedindo ainda mais atenção para o assunto e também se expondo mais. Há um caso curioso de uma pessoa da política local que eu retratei em uma charge. Quando soube, fez questão de ver. A resposta foi: "Só me desenha mais bonita". Reagiu com bom humor. E o assunto morreu ali.

Como encara que seu trabalho dialoga com as outras modalidades de arte?

É interessante, porque se trata do mesmo trabalho, mas com muitas vertentes. Na caricatura feita em eventos, especialmente no meio corporativo, por exemplo, a crítica dá lugar ao bom humor, aos sorrisos e ao exagero. A essência do traço continua a mesma, mas a intenção muda bastante.

Como analisa o atual cenário político e administrativo de Ribeirão?

Fazendo charges sobre o Legislativo e o Executivo da nossa cidade, fiquei pasmo ao perceber o quanto eu sabia pouco sobre o que realmente acontece nesse meio. Acho que nós, como cidadãos — e eu me incluo nisso — participamos muito pouco da política que rege nossos destinos. Reclamamos para as pessoas erradas e na hora errada.

Quem chega ao poder carrega um pouquinho de cada um de nós que o elegeu. É, de certa forma, a média do nosso caráter, da nossa honestidade, da nossa omissão e de outros traços da sociedade. Migramos de eleger os políticos da TV para eleger influenciadores. Nada contra, mas isso parece ter virado critério.

Resumindo, prefiro acreditar que ainda existe gente digna nesse meio.