'Ribeirão precisa ter mais orgulho de si mesma'
Samanta Pineda, advogada e ex-primeira-dama, fala sobre direito ambiental, agronegócio e gestão pública em entrevista exclusiva
, atualizado
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Em um país onde o debate público frequentemente se perde entre extremos, poucas vozes conseguem sustentar, com consistência técnica e coragem política, a defesa do equilíbrio. Samanta Pineda é uma delas.
Advogada com mais de 25 anos de atuação no direito ambiental, ela construiu uma carreira sólida em um dos campos mais sensíveis e estratégicos do país. Com trânsito consolidado no agronegócio e presença crescente nos espaços de influência, a ex-primeira-dama de Ribeirão Preto (gestão Duarte Nogueira) experimentou por dentro a engrenagem da máquina pública — uma vivência que, segundo relata, redefiniu sua compreensão sobre onde, de fato, a vida acontece: no município, onde políticas deixam de ser abstrações e se materializam.
Seu nome, não por acaso, já foi cogitado para o Ministério da Agricultura — movimento que traduz não apenas reconhecimento técnico, mas também a percepção de que sua visão dialoga com um país que ainda busca um ponto de equilíbrio entre vocação produtiva e responsabilidade ambiental.
Mas é justamente nesse ponto que Samanta se diferencia: ela rejeita tanto o negacionismo ambiental quanto o que classifica como "romantização" da natureza. Para ela, o problema brasileiro não está na falta de leis — muitas vezes avançadas —, mas na forma como são aplicadas, capturadas por interesses, distorcidas por ideologias ou instrumentalizadas por estruturas que operam na sombra.
Ao longo da entrevista ao Jornal Ribeirão, Samanta articula uma leitura incômoda e, ao mesmo tempo, pragmática: o Brasil já possui os instrumentos para ser uma potência sustentável — falta, no entanto, planejamento, coordenação e, sobretudo, coragem para executar o óbvio. Confira.
Jornal Ribeirão - Em que momento o direito ambiental e o agro deixaram de ser uma escolha e passaram a ser uma missão?
SAMANTA PINEDA - Não foi uma virada — foi uma convicção precoce. Ainda na faculdade, em Curitiba, eu via um distanciamento enorme entre quem criticava o agro e quem efetivamente conhecia sua realidade. Aquilo me incomodava. Eu vinha de uma vivência próxima a pequenos produtores no interior do Paraná e sabia que havia ali uma desconexão. Quando o direito ambiental entrou na equação, isso só se intensificou. Eu já saí da universidade sabendo que esse seria meu campo de atuação.
Qual o peso de Ribeirão Preto nessa construção?
Ribeirão tem um papel afetivo e profissional muito forte na minha trajetória. É uma cidade que traduz o agro em sua forma mais sofisticada: tecnologia, gestão, sucessão familiar — tudo isso convivendo com uma identidade muito própria. Existe ali uma naturalidade no vínculo com o campo que é rara. Isso me influenciou profundamente.
A experiência como ex-primeira-dama alterou sua visão sobre o poder público?
Completamente. Eu nunca tinha vivenciado a política tão de perto. E isso muda tudo, porque você percebe que é no município que a vida real acontece. A discussão deixa de ser teórica. Você passa a entender o impacto direto das decisões. Foi uma experiência que ampliou muito minha percepção — inclusive sobre limites, prioridades e execução.
O debate ambiental hoje parece sequestrado por extremos. Onde está o ponto de equilíbrio?
O Brasil tem uma das legislações ambientais mais robustas do mundo. O problema não está na norma, mas na aplicação. Em muitos casos, ela deixa de ser técnica e passa a ser emocional, ideológica ou até instrumentalizada. Há uma romantização da natureza que não dialoga com a realidade. O equilíbrio está justamente em aplicar a lei como ela foi concebida: com racionalidade.
Há interesses por trás dessas distorções?
Sem dúvida. Interesses comerciais internacionais, interesses políticos internos e, infelizmente, interesses ilícitos. Quando você cria um ambiente excessivamente restritivo e confuso, abre espaço para intermediações, ilegalidades e concentração de poder. Isso não é teoria — é prática.
O que falta para o Brasil assumir protagonismo como potência sustentável?
Planejamento e posicionamento. Dentro da porteira, o produtor brasileiro já é eficiente, tecnológico e, muitas vezes, sustentável. Mas o sistema como um todo falha. Falta infraestrutura, logística, estratégia. O Brasil não se apresenta ao mundo como aquilo que já é, em potencial.
Ser uma voz de equilíbrio em um ambiente polarizado tem custo?
Tem — e ele é claro: você apanha dos dois lados. Mas isso, para mim, é quase um indicador de que o posicionamento está correto. O problema é quando o debate deixa de ser técnico e passa a ser identitário.
Que liderança o agro precisa hoje?
Mais do que novas lideranças, precisa de convergência. O setor ainda opera de forma fragmentada. Falta articulação coletiva em torno de pautas comuns.
Quem é Samanta Pineda?
Eu sou uma crente convicta. Acho que Deus é, assim, a primeira coisa da minha vida. Sou uma mãe extremamente apaixonada pelos filhos e adoro esporte radical. Faço kitesurf, wakeboard — tudo que tiver adrenalina, estou fazendo.
E acho que isso também é um escape. Eu sempre falo que a gente precisa equilibrar cinco pratinhos na vida. A questão física, de saúde mesmo — tem que malhar, tem que comer direito, porque é o que te dá força. A questão espiritual, porque você precisa entender que é parte de um propósito; caso contrário, a soberba, a ambição e o poder te afastam dele.
A questão das relações — você precisa cuidar delas. Relações são plantinhas: com sua mãe, sua família, seus filhos, seu cônjuge, seus amigos. A questão das finanças — ninguém prospera sem planejamento. Você tem que gastar menos do que ganha. Diferente do governo.
Mas, enfim, é preciso fazer esse balanço.
E, por fim, o quinto pratinho é o da carreira, no sentido de quão útil você se sente para a humanidade, o quanto sente que faz a diferença. É isso que faz o olho brilhar.
Então, para mim, sucesso é quando todos esses pratinhos estão em cima. Às vezes, algum cai. E sucesso é a capacidade — e a velocidade — de colocá-lo de volta no lugar.
Sua atuação extrapolou o jurídico e entrou na comunicação. Foi estratégia?
Foi necessidade. Não basta ter a razão técnica se ela não chega às pessoas. Eu precisei ocupar espaços — redes sociais, televisão — para traduzir esse debate.
O que você ainda quer construir além do profissional? Qual legado gostaria de deixar?
Bem, o legado é essa ideia de que o equilíbrio é sempre o que devemos buscar. Esse balanço. Nada é 100% de um lado ou de outro.
Acho que o Brasil vive um momento muito triste de polarização. Precisamos resgatar esse equilíbrio.
Neste ano, estou escrevendo um livro chamado Direito Ambiental para a Humanidade, no qual abordo os efeitos nefastos de uma má aplicação da lei ambiental. O uso comercial disso pode condenar pessoas à pobreza por conta de uma proteção ambiental exacerbada.
O menor IDH do Brasil está na Amazônia. Há crianças envolvidas com tráfico ou prostituição. Isso não é cuidar do meio ambiente.
Esse livro é um desejo antigo. Nunca tive tempo de realizá-lo. Agora, aos 52 anos, decidi me permitir escrever. E acredito que esse legado vai me satisfazer muito.
Que conselho daria a quem está começando?
Rigor técnico. O direito ambiental exige capacidade de análise multifatorial. Emoção sem fundamento compromete decisões.
Se você fosse deixar uma mensagem hoje para Ribeirão, qual seria?
Gente, Ribeirão… primeiro, quero deixar um abraço carinhoso a cada ribeirão-pretano e dizer que amo essa cidade.
Mas penso que Ribeirão precisa ter mais orgulho de si mesma. Precisamos olhar para dentro e valorizar tudo o que há de bom aqui.
Ribeirão é uma grife — a grife de capital do agronegócio, de capital do interior paulista. E precisamos enxergá-la com esse orgulho.
Eu acho que é isso: orgulhar-se de ser ribeirão-pretano.