'A proposta é fortalecer a presença feminina na música'
Julia Sarti, musicista e integrante do Lyra Orquestra, grupo exclusivamente feminino, fala sobre a valorização da mulher e quebra de barreiras pela música
, atualizado
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Júlia Sarti Pupim é uma profissional multifacetada, unindo as carreiras de musicista, educadora e produtora cultural. Graduada em Música pela USP-Ribeirão e com formação técnica em piano erudito e produção cultural, Júlia possui um currículo extenso como instrumentista, tendo integrado diversas orquestras renomadas e participado de importantes festivais de música.
Natural de São José do Rio Preto, vive em Ribeirão Preto desde 2020, onde se dedica à musicalização em projetos sociais e escolas de música, além de atuar na viabilização de grandes espetáculos teatrais e musicais.
É uma das idealizadoras da Lyra Orquestra, um coletivo feminino que reúne musicistas de Ribeirão Preto e surge como uma força de transformação em um cenário musical historicamente marcado por figuras masculinas.
Mais do que uma formação instrumental, o grupo atua na criação, estudo e performance de obras, com um olhar atento e necessário para o repertório de compositoras. Para compreender a trajetória e o impacto dessa iniciativa, conversamos com Júlia — integrante e fundadora do grupo — em uma entrevista exclusiva e intensa.
O grupo apresenta, nesta terça-feira (31), o "Divas in Concert", que celebra vozes como a de Mercedes Sosa, Rita Lee, Elis Regina e Whitney Houston, entra outras, interpretadas pelas cantoras convidadas Fernanda Marx, Avinny, Bartira Sene, Gika Bacci, Carmem Costa, Fernanda Lopes e o Coro Feminino Zênite.
Júlia, que participou ativamente da construção desse projeto colaborativo desde o embrião, em 2022, compartilha os bastidores da orquestra e reflete sobre os desafios de ocupar espaços com autonomia e representatividade no cenário cultural atual.
"Ao apresentar essas músicas em concerto, buscamos não apenas homenagear essas mulheres, mas também provocar uma reflexão sobre como a história da música foi construída e sobre a importância de ampliar esses espaços de reconhecimento", conta. A seguir, os principais trechos da entrevista.
Falando sobre a Lyra, como surgiu a iniciativa?
A Lyra Orquestra nasceu da necessidade de criar um espaço em que mulheres pudessem se apresentar, criar, estudar e realizar performances musicais de obras instrumentais e cantadas, com um olhar especial para repertórios de compositoras. A proposta é fortalecer a presença feminina na música e ampliar as possibilidades de atuação artística dentro de um ambiente colaborativo.
E como funciona esse coletivo?
A orquestra funciona como um coletivo, em que as próprias integrantes participam ativamente de diferentes frentes do trabalho musical: performance instrumental, canto, prática coral e também na criação de arranjos que são desenvolvidos e apresentados pelo grupo. Em formato de concerto, a Lyra Orquestra reúne uma formação bastante diversa, que inclui cordas, sopros, percussão, violão, contrabaixo elétrico, bateria e piano. Esse encontro de timbres e linguagens diferentes permite construir uma sonoridade rica e versátil, ao mesmo tempo em que valoriza a colaboração entre as musicistas e a construção coletiva da performance.
Fale um pouco sobre o "Divas in Concert", apresentação que ocorre na terça-feira (31), pelo segundo ano consecutivo.
O "Divas in Concert" nasceu da necessidade de contar a história da música a partir da perspectiva das mulheres. Muitas vezes, compositoras, cantoras e intérpretes tiveram suas trajetórias e contribuições apagadas ou pouco reconhecidas ao longo da história. A proposta do projeto é justamente trazer essa outra ótica: revisitar repertórios, destacar essas artistas e valorizar a produção musical feminina, mostrando a força e a diversidade de suas obras.
Ao apresentar essas músicas em concerto, buscamos não apenas homenagear essas mulheres, mas também provocar uma reflexão sobre como a história da música foi construída e sobre a importância de ampliar esses espaços de reconhecimento.
Como você analisa a importância de iniciativas como a Lyra para o empoderamento feminino?
A Lyra existe como uma possibilidade de referência para as artistas mulheres do cenário cultural atual e também para as futuras musicistas. Ter um espaço em que mulheres possam criar, se apresentar e ocupar o palco juntas é muito importante para fortalecer essa presença feminina na música.
Como se deu a sua entrada no grupo e por que acha relevante?
A minha entrada no grupo aconteceu no início e na construção do projeto, justamente por essa identificação com a proposta do coletivo e com a vontade de construir um espaço artístico colaborativo entre mulheres. Acredito que iniciativas como essa são relevantes porque ajudam a ampliar oportunidades, incentivar novas artistas e mostrar que é possível ocupar esses espaços com autonomia, qualidade artística e representatividade.
A Lyra trabalha essencialmente com música que não é exatamente popular (no sentido de massiva). Como quebrar essa barreira e levar o trabalho de vocês para um público menos restrito? Considera possível?
A Lyra Orquestra trabalha com diferentes formatos de concerto justamente como uma forma de aproximar o público desse repertório. Um exemplo é o Divas in Concert, que propõe uma mescla entre a música de concerto e a música popular. No mesmo espetáculo, o público pode ouvir desde Hildegard von Bingen até Whitney Houston, além de artistas brasileiras como Elis Regina, Rita Lee e Alcione, entre outras vozes muito reconhecidas pelo grande público. O programa também inclui músicas autorais e produções regionais.
A diversidade é intencional?
Essa diversidade de repertório ajuda a criar pontes entre diferentes universos musicais, tornando a experiência mais acessível e convidando o público a ampliar suas referências.
Ao longo do ano, a Lyra também apresenta outros formatos de concerto, que podem ser mais voltados à música de concerto propriamente dita ou a propostas pedagógicas. A ideia é justamente diversificar as experiências e construir diferentes caminhos de aproximação entre a orquestra e o público.
Você considera o cenário cultural de Ribeirão excludente? Vê "círculos fechados"?
A sociedade ainda carrega estruturas machistas e misóginas, e a arte muitas vezes acaba refletindo essa realidade. Por isso, iniciativas como a Lyra Orquestra são tão importantes: elas surgem justamente para quebrar esse ciclo.
A Lyra busca criar um espaço seguro, de acolhimento e de representatividade para mulheres artistas, incentivando a colaboração e abrindo caminhos para que mais mulheres possam atuar, criar e se apresentar dentro do cenário cultural.
Apresentação do Concerto "Lyra: Divas in Concert"
Data: 31 de março de 2026
Local: Teatro Municipal de Ribeirão Preto
Horário: 20h - Apresentação musical