'Se há déficit e dívidas, todos pagamos a conta'

Nelson Rocha Augusto, economista e fundador do Banco Ribeirão, analisa cenário nacional e fala sobre Ribeirão

, atualizado

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Nelson Rocha Augusto, economista e dirigente do Banco Ribeirão Preto
Nelson Rocha Augusto, economista e dirigente do Banco Ribeirão Preto - Foto: Fabio Marchiselli
Nelson Rocha Augusto, economista e dirigente do Banco Ribeirão Preto - Foto: Fabio Marchiselli

Ribeirão-pretano de "longuíssima data", o economista Nelson Rocha Augusto sintetiza o equilíbrio entre o rigor do mercado financeiro e a sensibilidade da gestão pública. Filho e neto de médicos — seu pai integrou a histórica primeira turma de Medicina da USP de Ribeirão Preto —, Nelson rompeu a tradição familiar da saúde para se tornar um dos economistas mais influentes da região.

Botafoguense apaixonado, é fundador e gestor do Banco Ribeirão Preto, que completa 33 anos em 2026. Em sua trajetória, presidiu a BBDTVM (atual BB Assets) e traz na bagagem a experiência de ter sido secretário de Planejamento de Antonio Palocci (PT), entre 2001 e 2002, a quem qualifica como "gênio".

Mas Nelson é mais do que números. Ex-capoeirista, triatleta e um dos fundadores do Cine Cauim, ele carrega uma visão humanista da economia, pautada pela máxima de Nelson Rodrigues: "a vida como ela é". Atualmente à frente do Instituto de Economia Maurílio Biagi, dedica-se a decifrar os desafios fiscais do Brasil enquanto troca experiências com as novas gerações.

Nesta entrevista, ele fala sobre suas raízes, o cenário econômico atual e a urgência de priorizarmos o coletivo sobre o individual. Confira os principais trechos.

JORNAL RIBEIRÃO: Qual sua relação com Ribeirão?

NELSON ROCHA AUGUSTO - Nasci em Ribeirão Preto, assim como minha mãe e minha avó materna. Temos uma ascendência local de longuíssima data. Pelo lado do meu pai, a história é diferente: ele veio para cursar Medicina, integrou a primeira turma da faculdade em Ribeirão e foi professor da USP a vida inteira. Mesmo vindo de fora, ele passou toda a sua trajetória na cidade como médico e professor universitário. Minha mãe também é médica, da segunda turma da faculdade. Temos laços profundos com a cidade.

E como surgiu a economia em sua vida?

Minha escolha profissional foi muito influenciada pelo ensino fortíssimo que recebi no colegial em Ribeirão Preto, que preparava os alunos para as universidades públicas. Passei de primeira em Economia na Unicamp e decidi seguir esse caminho. Embora cercado por médicos na família materna, meu avô paterno era feirante. O que me despertou para a área econômica foram professores brilhantes de História e Geografia, que me interessaram pela geografia econômica mundial. O jovem Nelson, portanto, sonhava em ser economista.

Qual sua grande influência?

Minha principal influência foi Melhem Adas, professor de Geografia, mas tenho muitas outras referências. Cito Gilberto Abreu, na área de Geografia Internacional, e o professor Dantas, em História Brasileira.

Fora da economia e da gestão pública, quais são os hobbies ou interesses que o senhor cultiva?

Sou apaixonado por esportes. Sempre pratiquei diversas modalidades, buscando inclusive as menos convencionais. Fui capoeirista no Grupo Cativeiro por mais de dez anos e cheguei a ser cordão trançado. Hoje, continuo me exercitando: corro, nado e pedalo. Optei por essas atividades porque, nesta fase da vida, os esportes competitivos tornam-se perigosos e causam lesões.

Além disso, sou um leitor voraz. Leio constantemente sobre diversos temas, o que contribui para minha formação e me agrada genuinamente. Considero-me um incentivador da cultura, vendo-a como instrumento de cidadania e qualidade de vida. Na prática, meu principal consumo é a literatura, mas também apoio o cinema; sou um dos fundadores do Cauim, projeto que me orgulha muito.

Qual é o time do coração?

É o Botafogo de Ribeirão Preto. Torço por ele devido ao lado paterno da família; minha avó era italiana e todos os meus tios eram palmeirenses, assim como meu pai. Por isso, também torço para o Palmeiras. Mas, se a pergunta é sobre o coração, a resposta é o Botafogo. Pelo Palmeiras eu torço, mas pelo Botafogo tenho uma verdadeira paixão.

Em momentos de crise fiscal, qual a decisão mais difícil que um gestor precisa tomar?

O primeiro passo é entender a magnitude da crise. O Estado somos todos nós; se há déficit e dívidas, todos pagamos a conta. Portanto, empresários e famílias devem ser contra o déficit e ter ciência de suas consequências. Quando a crise fiscal se agrava, a sociedade paga caro, seja pelo aumento de impostos, seja pela aceleração inflacionária — o imposto mais injusto, pois atinge quem não pode se defender. É fundamental acompanhar essa questão, pois a conta sempre chega para o cidadão e, invariavelmente, o mais pobre paga o preço mais alto.

Como lidar com essa questão?

Muitas vezes há constrangimento em usar o termo "pobre", preferindo-se expressões como "pessoas menos favorecidas". Tenho sensibilidade quanto a isso, mas, na prática, quem tem menos recursos paga com a própria vida, sofrendo com a falta de comida, medicamentos e vestuário. Uma crise fiscal é extremamente onerosa para as famílias pobres.

Sobre Ribeirão, como analisa a situação da cidade?

A situação fiscal de Ribeirão Preto alcançou um equilíbrio significativo nos últimos anos. Após uma crise gravíssima há dez anos, quase à beira da bancarrota, houve uma recuperação sólida, incluindo o Instituto de Previdência municipal. Hoje, a situação da cidade, comparada a centros de porte e dinâmica econômica equivalentes, é bastante satisfatória. O processo de recuperação nos últimos sete ou oito anos foi muito relevante.

Qual é o legado que o senhor gostaria de deixar?

Gostaria de inspirar as pessoas a agirem com ciência, ética e princípios. Esse é o modelo que herdei da minha família. Meus filhos seguem esse caminho: são todos formados e dedicados. Aprendemos em casa que estudar e ter princípios é a melhor forma de conviver em sociedade. Tenho muito orgulho deles; dois estão cursando doutorado e a mais velha já concluiu o mestrado.

E sobre o trabalho no Instituto de Economia Maurílio Biagi?

No Instituto, nosso objetivo é estimular o estudo. Envolvemos a comunidade para identificar demandas de pesquisa e firmamos um convênio com a USP, que nos disponibiliza acesso a diversas produções acadêmicas. Sou um curioso nato e sinto prazer em incentivar o conhecimento. Em um mundo de opiniões imediatas, acredito que é melhor estudar primeiro para, depois, formar uma opinião.

O senhor foi secretário municipal no governo Antonio Palocci. Qual sua opinião sobre o ex-ministro?

Considero o Palocci uma das pessoas mais inteligentes que já conheci; ele é, de fato, um gênio. Médico de formação, possuía uma capacidade de compreensão impressionante, um verdadeiro gênio. Trabalhei com ele desde o primeiro mandato, embora precisasse focar na iniciativa privada na época, quando nascia o Banco Ribeirão Preto. Ele sabia ouvir: eu explicava um conceito econômico e, pouco depois, ele falava sobre o tema com um domínio que muitas vezes superava a minha própria explicação.

Lamenta os acontecimentos da Lava Jato?

É uma pena os caminhos escolhidos. Ele faz falta pela inteligência e capacidade que possui. No entanto, não cabe a mim avaliar os fatos; as questões que surgiram são graves e não podemos ignorar a realidade do que ocorreu.

Qual a maior dificuldade econômica hoje no país e como ela se reflete em Ribeirão?

Sem dúvida, é a questão fiscal. O "calcanhar de Aquiles" da economia brasileira é um Estado que custa caro e entrega menos do que deveria. Há distorções e privilégios previdenciários inaceitáveis que a sociedade precisa enfrentar. Como dizia Nelson Rodrigues, devemos olhar para "a vida como ela é". Enquanto o brasileiro priorizar o pessoal em detrimento do coletivo, a economia continuará com uma "bola de chumbo no pé". A falta de foco no coletivo gera problemas fiscais que elevam os juros e travam o nosso potencial de crescimento.

Como analisa os juros praticados no país?

Juros altos combatem a inflação, mas concentram renda. O depositante ganha muito, enquanto a sociedade e o Estado — o maior endividado — pagam a conta. Precisamos priorizar o coletivo para corrigir esse processo estrutural.

Como vê o futuro?

Sou otimista com as novas gerações, que mostram mais sensibilidade para questões como tolerância, respeito às desigualdades e consciência educacional. O caminho é investir fortemente na educação para transformar a realidade.

Como é sua rotina hoje e o que diria para quem está começando?

Minha rotina é pautada pelo planejamento, o que me permite conciliar trabalho, família, esportes e lazer. A maturidade me ensinou a ser mais eficiente e a escolher melhor minhas batalhas. Hoje, foco no que realmente frutifica. No Instituto, aprendo diariamente com estagiários jovens; eles dominam a técnica digital e eu contribuo com a experiência e o contexto histórico.

Para quem está começando, eu diria: mantenham a vontade de entender o mundo, escolham bem suas batalhas e lutem pelo bem comum. O "nós" deve ser sempre mais importante que o "eu".