'Não prevejo que a cidade, ao término do atual governo, estará melhor'

Pré-candidato a deputado federal, Duarte Nogueira (PSD) alfineta Ricardo Silva, elege PT como alvo e prega exorcismo da corrupção

, atualizado

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Prefeito de Ribeirão Preto por dois mandatos consecutivos (2017-2024), Duarte Nogueira (PSD), 61, construiu sua trajetória política ancorado em pautas de gestão pública, desenvolvimento regional e articulação federativa. Engenheiro agrônomo de formação, iniciou a vida pública ainda jovem e consolidou seu espaço no cenário político ao se eleger deputado estadual e, posteriormente, federal por São Paulo.

Antes de assumir o comando do Palácio Rio Branco, ocupou cargos estratégicos, como a Secretaria de Transportes de São Paulo. À frente da prefeitura enfrentou desafios fiscais, crises econômicas e a pandemia de Covid-19, período em que defendeu medidas de equilíbrio orçamentário.

Pela primeira vez em 30 anos sem ocupar um cargo público, está em plena pré-campanha para o Congresso Nacional. Nesta entrevista exclusiva, ele analisa o cenário nacional, critica duramente o PT — a quem define como o adversário a ser enfrentado — e não poupa críticas ao prefeito Ricardo Silva, com quem divide a legenda. "Não prevejo que a cidade, ao término do atual governo, estará melhor do que quando eles a receberam", afirmou.Confira os principais pontos da entrevista.

JORNAL RIBEIRÃO:Entre os dez candidatos mais votados para deputado federal em 2022 em Ribeirão, apenas um deve concorrer. Há votos "sobrando"?

DUARTE NOGUEIRA: Quando começamos a retirar esses nomes do cenário, percebemos um volume expressivo de votos que fica sem um "dono natural". Esses candidatos somaram, juntos, quase 100 mil votos. É muita coisa; esse montante, por si só, elege um deputado.

Como o senhor analisa essa disputa?

Localmente, teremos o Baleia Rossi e o Marco Aurélio. Eu também estou no páreo. Creio que teremos uma concentração de votos, posto que haverá menos candidatos a deputado federal e estadual. A tendência, portanto, é que os nomes lançados localmente consigam concentrar uma fatia maior dos votos.

O senhor acredita em uma eleição polarizada?

Por enquanto, ela continuará polarizada. Se analisarmos as pesquisas, o cenário está bastante extremado entre a extrema-esquerda de Lula e a extrema-direita de Bolsonaro. Isso ocorre porque esses polos detêm cerca de 30% cada, restando um terço dos eleitores no meio do caminho que, neste momento, podem estar se dividindo entre essas duas candidaturas, mas que gostariam de um outro caminho — um caminho de centro, menos polarizado e menos radicalizado. É exatamente aí que o PSD está, estrategicamente, apontando o seu candidato. Eu disse ao próprio Gilberto Kassab, e repeti ao Ronaldo Caiado, que não podemos ir nessa onda de "terceira via"; temos que afirmar que somos a "via certa". A via que discute o Brasil, que não xinga o adversário, não aponta o dedo e não desqualifica.

As tentativas de sair da polarização na nossa democracia recente não tiveram sucesso eleitoral. Essa via pode se tornar viável?

O segredo é escolher o adversário certo, e o adversário certo é o PT. A "via certa" tem que mostrar propostas, mas o foco da oposição deve ser o PT. Por que o Alckmin errou em 2018? Porque ele bateu no Bolsonaro, atacou o adversário errado. O adversário que de fato divide o estilo da política é o PT, e nós somos o contraponto ao PT.

A direita aprendeu a lição?

Eu espero que sim, até porque acredito nisso. Terá de ser uma eleição bastante propositiva, mas com a contundência que o eleitor espera de quem se apresenta para derrotar o Lula e o PT.

Como se posiciona em relação ao voto local?

A região de Ribeirão perdeu muitos deputados federais e estaduais em 2018 e 22. O interior, como um todo, perdeu representatividade. Espero que o "voto distrital informal" prevaleça nestas eleições. Acho que foi importante a restrição de os partidos não poderem mais fazer coligações proporcionais. Creio que devemos caminhar também para a proibição das coligações majoritárias.

Pensa em voltar a ser prefeito?

Eu não descarto essa possibilidade. No entanto, dependerá do desfecho desta eleição e da conjuntura futura. Pode ser que amanhã, na Câmara, dado o crescimento do partido, surjam tarefas diferenciadas dentro do parlamento. Em política, não se afirma nada de forma absoluta e também não se nega nada.

Como vê o movimento de aproximação de Geraldo Alckmin e Lula?

Devo respeitar a posição que ele tomou. Ele ficou "ensanduichado" dentro do PSDB naquele momento, em 2022, e decidiu se aliar ao Lula. Hoje eu entendo por que ele fez esse movimento. No entanto, não fui eu quem mudei de opinião; eu continuo em oposição a todas aquelas ideias que sempre sustentei. Ele é quem mudou de opinião. Mas isso não desqualifica e nem diminui o meu respeito e amizade.

O senhor está, pela primeira vez em 30 anos, sem mandato. Como tem sido?

Costumo dizer que melhor do que ser prefeito é ser ex-prefeito, pois você recebe o reconhecimento pelo trabalho realizado, inclusive daqueles que não gostavam, mas passaram a respeitar ao ver que "o buraco é mais embaixo". Estou muito feliz e com a consciência tranquila de quem honrou os votos recebidos, sem macular minha imagem ou o legado que recebi do meu pai. Isso é fundamental, pois a corrupção é um dos piores problemas do Brasil.

Esse será um tema relevante nas eleições?

Mário Covas dizia que o povo nunca erra, desde que tenha todas as informações. O problema é quando alguém vai para a internet, mostra um revólver, bate no peito dizendo ser o mais honesto do mundo, mas entra no governo para tomar dinheiro de funcionário, usar verba de gabinete para fins pessoais ou pedir percentual de emenda parlamentar. Isso acontece muito; infelizmente, é quase a regra. Esse malfeito precisa ser punido, não só no Congresso, mas também no Judiciário. Como um ministro do Supremo pode ter um parente com contrato de R$ 129 milhões com o banco de um "picareta" como esse Banco Master? Como um ministro do STF vira sócio de resort de familiares com esse mesmo cidadão? Como um ministro do Tribunal de Contas, enviado pelo Congresso, trava uma investigação dessas no TCU? Temos 33 ministros no STJ onde grande parte dos gabinetes é acusada de vender sentenças (...) O eleitor que assiste a tudo isso e tem o mínimo de informação faz uma avaliação crítica daqueles que deveriam nos defender. Por isso, acredito que, nesta eleição, os eleitores queiram fazer um "exorcismo", pois é a partir dela que veremos como será o Brasil daqui para frente.

O senhor e o prefeito Ricardo Silva são adversários e senhor acabou se filiando ao PSD, partido dele. Como está a relação?

Eu nunca fiz política junto com o atual prefeito; sempre fomos oposição um ao outro e é natural que assim permaneça. No entanto, se eu for eleito deputado por Ribeirão, defenderei a cidade e os investimentos para o município, independentemente de para quem ele decida fazer campanha.

Incomoda-lhe vê-lo trabalhando para outro candidato?

Isso faz parte do jogo político; cada um pode ter suas preferências. Da minha parte, não impus nenhuma condicionante para ingressar no PSD, exceto a de ter espaço político para atuar, o que tem sido garantido pelo Gilberto Kassab. Estou muito feliz com o tratamento que recebo no partido, inclusive das lideranças regionais que me acolheram.

Como avalia o governo Ricardo Silva?

O atual governo já está caminhando para a metade do mandato. Mário Covas dizia que o seu mandato de quatro anos será exatamente o que você fez nos primeiros seis meses, e o atual governo perdeu essa oportunidade por inexperiência, por não ter noção do timing das coisas e, ao mesmo tempo, porque subestimou o que é necessário para fazer um bom governo.

Ribeirão Preto está entrando novamente em uma situação de declínio, como viveu no passado. Eu dizia que não resolveria todos os problemas da cidade, mas que a deixaria em uma situação bem melhor do que recebi. Isso eu fiz. Não prevejo que a cidade, ao término do atual governo, estará melhor do que quando eles a receberam, dado tudo o que estamos vendo.