Entre o tesouro e o legado
Conheça a trajetória de José Carlos Barbosa, presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas
, atualizado
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José Carlos Barbosa é feito de histórias improváveis. Nascido em Serra Azul, a "capital do tesouro", chegou a Ribeirão em 1955. Aos 14 anos, a morte do pai o tornou arrimo de família, forçando-o a trocar o futebol pelo trabalho precoce. Foi policial militar, rodou o país e, no norte do Mato Grosso, transformou a adversidade em oportunidade ao fundar um jornal que cobria quatro cidades.
Sobrevivente de golpes financeiros e até de uma tentativa de homicídio na fronteira amazônica, retornou a Ribeirão para reconstruir sua trajetória. Em 1999, ingressou na Ordem dos Jornalistas, tornando-se, em 2012, o primeiro negro a presidir a entidade.
Hoje, com a Ordem próxima de completar 50 anos de história, Barbosa lidera uma gestão que equilibra o peso da burocracia e a solidão do cargo com o sucesso internacional de sua revista digital, lida do Japão à Groenlândia.
Nesta entrevista, ele revisita sua travessia: do improviso na fronteira ao legado institucional, em uma conversa sobre jornalismo, resistência e a ética de não deixar a memória morrer.
JORNAL RIBEIRÃO - O senhor costuma dizer que nasceu na "capital do tesouro". Como foi sua chegada a Ribeirão?
José Carlos Barbosa: Eu nasci em Serra Azul, conhecida como a capital do tesouro. Há uma lenda de um tesouro que foi escavado lá e o pessoal que mexeu com isso desapareceu. Vim para Ribeirão em 1955, aos sete anos de idade. Ribeirão me acolheu.
Minha vida mudou drasticamente aos 14 anos, quando meu pai faleceu. Tornei-me arrimo de família; tinha minha mãe e uma irmã menor para sustentar. Naquela época, eu já trabalhava com carteira assinada e tive que desistir do futebol, apesar das oportunidades que surgiam, porque a prioridade era colocar comida na mesa.
Fiz curso técnico de marcenaria na Escola Industrial, mas a vida exigia urgência no trabalho. Em 1970, entrei para a Polícia Militar, onde servi por sete anos antes de seguir outros caminhos pelo Brasil. Voltei e estou aqui desde então. Essa cidade me acolheu e foi tudo durante esse tempo inteiro.
Na parte educacional, entrei na escola aqui e fui até onde deu. Aos 14 anos virei arrimo de família. Meu pai faleceu e eu tinha que trabalhar. Inclusive surgiram oportunidades no futebol naquela época, mas desisti, porque já trabalhava, tinha carteira assinada desde os 14 anos e precisava cuidar da minha mãe e da minha irmã, que era menor. Então desisti de correr atrás do futebol.
Foi complicado?
Eu era menor de idade, mas ganhava meio salário mínimo. Naquela época dava para se virar. Juntava meu salário com o da minha mãe, pagávamos aluguel e seguíamos.Quando fiz 21 anos, entrei na Polícia Militar, em 2 de fevereiro de 1970. Fui para São Paulo, fiquei lá sete anos, pedi baixa e voltei para Ribeirão.
Depois veio a fase de casar e ter filhos. Tive dois filhos, um casal. Houve separação e voltei para a casa da minha mãe. Trabalhei em Mato Grosso, em Juruena; depois em Matupá, na Serra do Cachimbo. Rodei bastante. Fiz curso técnico na Escola Industrial e me formei marceneiro. Fiz supletivo e iniciei faculdade, mas não terminei.
O senhor quase foi jogador de futebol. Ainda acompanha?
Em 1976, na invasão do Rio — Corinthians e Fluminense, no Maracanã — eu estava lá. Cabiam 200 mil pessoas, e o Corinthians tinha maioria. Foi uma loucura. Aquela onda humana, aquele calor… só quem esteve lá sabe.
Sou corintiano. Aqui em Ribeirão, sou botafoguense. Hoje não vou mais a estádio, não gosto de aglomeração. Vivi muito aquilo lá atrás.
Quando o jornalismo entrou na sua vida?
Sempre gostei de escrever. Trabalhei em rádio, tirei o MTB quando ainda era possível sem diploma. Mas o jornalismo virou profissão mesmo quando fui para o norte de Mato Grosso, no começo dos anos 1990.
Fui como comprador de madeira. A empresa me deixou na mão, levei um golpe. Fiquei sem dinheiro, hospedado em um hotel na divisa do Pará. Pensei: ou eu volto derrotado ou faço alguma coisa. Tentei montar uma agência de transporte e consegui patrocinador com facilidade. Aí tive um estalo: vou montar um jornal.
E montou?
Montei. O jornal circulava em quatro cidades: Matupá, Peixoto de Azevedo, Terra Nova do Norte e Guarantã do Norte. Eu tinha programa em rádio FM. O escritório funcionava anexo a uma churrascaria, onde a cidade discutia política. O jornal ajudou a eleger um vereador. Foi um período muito forte da minha vida.
Mas o projeto não continuou. Por quê?
Vieram os problemas. Acabei vendendo o jornal e comprando uma madeireira, mas foi uma péssima decisão. Cheques sem fundo, carro roubado, ameaça de morte. Mandaram um homem me matar. A vila inteira ficou sabendo antes de mim. Disseram: "Barbosa, se prepara que é hoje". Houve confronto. Ele dizia que estava com exu. Eu respondi: "então você encontrou o exu boiadeiro". Dei um cacete nele. Pouco depois, decidi voltar para Ribeirão.
E como a Ordem dos Jornalistas entrou na sua vida?
Aconteceu depois que voltei a Ribeirão. Cheguei à Ordem em 1998. O João Milton Forte Furtado falou: "Barbosa, vamos comigo hoje". Era um almoço da Ordem dos Velhos Jornalistas, na Churrascaria Gaúcha. Quando cheguei, o presidente era Rubem Cione, que estava lá. Eu disse a ele: "O senhor foi meu professor de Português na Escola Industrial". Ele ficou muito feliz: "Então senta aqui do meu lado". E ali eu nasci dentro da Ordem.
Como foi o convite para assumir a presidência e ser o primeiro negro no cargo?
Eu estava descendo a rua quando recebi um chamado do Vanderlei Caixe, então presidente da Ordem: "Barbosa, estamos montando uma nova diretoria e você vai ser o presidente da Ordem". Por livre e espontânea pressão, fui escolhido. Arrumei uma porção de desculpas, e ele disse: "Você é o camarada que menos falta. E outra coisa: você vai ser o primeiro negro a ser presidente da Ordem".
Foi em 2012, e eu aceitei. Não por ser negro. Eu nunca me vi nessa divisão entre negro e branco. Fui convidado como pessoa. Não carrego esse peso.
Pessoalmente, nunca pautei minha trajetória pela distinção entre negro ou branco. Reconheço o peso simbólico, mas não carrego esse fato como fardo ou condição especial. Fui convidado como pessoa e profissional. Tenho, inclusive, pesquisas sobre negros ilustres e desconhecidos da época da escravidão que cresceram na vida sem carregar o peso da "negritude" como impedimento. Eu simplesmente assumi a função e toquei o trabalho.
Como analisa a questão das cotas?
Sou radicalmente contra. Considero que isso se assemelha a um pedido de esmola, e eu me vejo como igual a todos.
Quando decidi cursar o ensino superior, fiz o supletivo do colegial. Muitos diziam que essa modalidade não dava condições de enfrentar um vestibular, mas eu sempre tive o desejo de ocupar um banco de faculdade. No último dia de inscrições para o vestibular do Moura Lacerda, peguei um cheque na empresa onde trabalhava e fiz minha matrícula. Eram 150 vagas para Administração, e eu fui aprovado em 55º lugar. Entrei pela minha própria capacidade e mérito; não precisei de cotas ou de qualquer "esmola" para ingressar na faculdade.
Voltando à Ordem, o senhor se tornou o presidente mais longevo da entidade. O que mais o orgulha?
Formalizamos o estatuto, conquistamos personalidade jurídica e utilidade pública municipal. Estamos tentando o reconhecimento estadual, mas a burocracia é pesada. Reestruturamos o Prêmio Bem-Te-Vi, que passou de entrega mensal para evento anual consolidado. Criamos a Mostra dos Escritores na semana do aniversário da cidade. Ampliamos a atuação para além de Ribeirão.
Sempre há dificuldades. Muita coisa para fazer e, às vezes, pouca gente para ajudar. Mas seguimos.
Qual é o papel da Ordem hoje?
A Ordem é espaço de encontro, de valorização de quem construiu o jornalismo da cidade. Também é lugar de resistência cultural.A Ordem, prestes a completar 50 anos, enfrenta desafios estruturais severos. A falta de engajamento da diretoria e dos associados sobrecarrega a presidência, resultando em uma gestão quase solitária. Apesar das limitações financeiras — muitas vezes os custos de contabilidade e manutenção bancária superam a arrecadação — conseguimos expandir a presença digital da instituição.
A revista da Ordem, que diagramei pessoalmente, alcançou público internacional, com acessos registrados em países como Japão, Israel, Filipinas e Estados Unidos. Meu objetivo é garantir que a instituição não desapareça, mantendo eventos tradicionais como o Prêmio Bem-Te-Vi.
Para encerrar, como o senhor vê o futuro da Ordem?
Considero a Ordem um pouco como me considero: um sobrevivente. Já perdi tudo e recomecei. Quando coloco algo na cabeça, eu faço. Não sou de ficar parado. A vida me ensinou a cair e levantar. Enquanto eu tiver saúde, continuo. E a Ordem também.