'O STF está fermentando uma reedição do movimento de 2013'

Além de críticas ao Judiciário, o cientista político Luiz Rufino fala sobre sua experiência com a ex-prefeita Dárcy Vera e analisa o cenário político de Ribeirão e do Brasil

, atualizado

Compartilhar notícia

Luiz Rufino, cientista político e ex-secretário da Educação de Ribeirão Preto
Luiz Rufino, cientista político e ex-secretário da Educação de Ribeirão Preto - Foto: Acervo Pessoal
Luiz Rufino, cientista político e ex-secretário da Educação de Ribeirão Preto - Foto: Acervo Pessoal

Natural de Limeira, mas radicado em Ribeirão Preto desde 2003, Luiz Rufino, 53 anos, equilibra a erudição acadêmica com a vivência visceral da política. Cientista Social (Unesp) e Mestre em Filosofia (PUC), o autor de Niilismo e Barbárie transita entre as salas de aula do ensino básico e as cátedras universitárias, lecionando História e Filosofia.

Sua bagagem na gestão pública é densa e inclui o que ele define como uma experiência "aterrorizante": a passagem pelo governo Dárcy Vera - a quem define como uma política extremamente carismática. No "governo rosa", atuou como Chefe de Gabinete e Secretário de Educação, além de presidir a complexa Comissão de Acompanhamento do Transporte Coletivo. "Não pretendo reviver a experiência", comenta, entre risos.

Hoje, à frente da Civitas Consultoria Política, Rufino observa o cenário nacional com cautela. Para ele, a atuação do STF tem gerado um efeito rebote na sociedade: "Está se formando um novo movimento de 2013", vaticina.

Fora dos gabinetes, Luiz é um entusiasta das artes e do esporte. Pai de três filhos — Felipe (34), Maria Clara (19) e Francisco (11) —, encontra refúgio na natação e na música clássica. Especialista em Filosofia Estética, já ministrou cursos sobre a história da ópera, sua grande paixão. No futebol, a herança é de berço: neto de um dos fundadores do Independente de Limeira, ele admite, com bom humor, que joga com mais paixão do que talento. Em solo ribeirão-pretano, adotou o Botafogo como time do coração.

Nesta entrevista exclusiva, Rufino analisa os desafios da democracia brasileira e compartilha as lições de quem sobreviveu aos bastidores do poder. Confira.

JORNAL RIBEIRÃO: Começando com polêmica. O senhor foi um dos mais ferrenhos críticos ao governo Dárcy Vera e acabou integrando a administração. Como foi isso?

LUIZ RUFINO: Por um acaso do destino, eu, que era crítico do governo Dárcy, acabei indo para dentro da gestão, primeiro na chefia de gabinete. Tinha acabado de participar de uma campanha municipal, havia deixado as aulas e, em 2016, fui viver na prática tudo aquilo que teorizava. Fui com um olhar antropológico.

No começo, achei que poderia mudar algumas coisas. Mas você descobre que é um indivíduo atomizado diante do tamanho do Estado municipal e da burocracia. Peguei os dois últimos anos do governo, o olho do furacão. Foi uma das maiores experiências da minha vida.

Nos primeiros seis meses, eu queria fazer tudo. Mas fui literalmente "congelado". Não tinha acesso a praticamente nada. Depois vieram algumas missões importantes, como presidir a comissão de acompanhamento do contrato do transporte coletivo, com cerca de R$ 24 milhões envolvidos. Também assumi a organização da passagem da tocha olímpica por Ribeirão, com mais de 80 pessoas envolvidas — uma verdadeira fogueira das vaidades.

Depois veio o impacto da Operação Sevandija, da Polícia Federal. Fui para a Secretaria da Educação nos três últimos meses do governo, administrando um orçamento de cerca de R$ 37 milhões naquele período, em um ambiente extremamente delicado. Foi um tempo de muita pressão. Boa parte dos meus cabelos brancos — e muitos dos que não existem mais — deve-se a esse período.

E sobre a ex-prefeita Dárcy Vera, qual sua análise?

Digo com tranquilidade: é uma das pessoas mais carismáticas que já vi na política. Talvez tenha faltado planejamento de longo prazo e ouvir melhor as pessoas certas. Não sei se deveria ter disputado o segundo mandato. Às vezes, faltou estruturar melhor o futuro político e houve momentos de má orientação, principalmente das pessoas que a cercavam.

O senhor citou a questão de ouvir as pessoas certas. Político mal assessorado é um problema recorrente? E isso se aplica também ao caso do Bolsonaro?

Sim. Faltou ouvir as pessoas certas. Bolsonaro não entendeu a guerra que estava disputando. Lidar com o PT é lidar com uma estrutura muito organizada. Ele fez o jogo fisiológico do Centrão, colocou pessoas que o traíram. Foi traído muito cedo.

Também traiu parte das pessoas que o levaram ao poder. Ouvia demais os militares, que não têm traquejo político. Ele mesmo disse que deveria ter "eliminado os inimigos" no começo, no sentido político da expressão. Passou o governo enxugando gelo. A pandemia agravou tudo. Faltou uma estratégia política clara.

Indo para o cenário nacional, como você analisa o atual momento do Supremo Tribunal Federal, que vem sendo fortemente contestado? Esse protagonismo do Judiciário é um problema? A democracia consegue resolver isso?

Isso tem diagnóstico. Desde Dilma, vivemos uma democracia de coalizão em que o Congresso coopta o presidente. O Executivo foi enfraquecido. Bolsonaro governou assim. Lula, no terceiro mandato, percebeu que não governaria com o Congresso dominado pelo Centrão e se apoiou no Supremo.

O Supremo também teve interesse em derrotar Bolsonaro, e Lula era o único capaz de fazê-lo nas urnas. Isso foi público. Mas esse modelo cria dependência. O problema é que o excesso de protagonismo gera desgaste institucional. Código de conduta não resolve crise de legitimidade. Há decisões tomadas em ambientes fechados, negociações que não são transparentes. A população começa a desacreditar.

Vejo um desgaste generalizado. Nem Lula nem Bolsonaro mobilizam mais como antes. Surge espaço para novas lideranças carismáticas. O Centrão não é orgânico; atua por ocupação de espaço. E novas figuras começam a aparecer nesse vácuo.

Essa polarização interessa tanto à direita quanto à esquerda para evitar uma terceira via?

Sim. À esquerda interessa o bolsonarismo como inimigo claro. Parte dos votos vem da rejeição ao Bolsonaro, não de fidelidade orgânica. À direita bolsonarista também interessa manter o rótulo. É um inimigo definido, o que facilita a comunicação.

Enquanto isso, o Centrão vai ocupando espaço. Se você somar as cadeiras, percebe que o grande vencedor não é a direita nem a esquerda, mas o centro fisiológico.

Na sua análise, Alexandre de Moraes é o novo Sérgio Moro?

Com diferenças, mas vejo que ambos foram "mordidos pela mosca do poder" e passaram a agir nos limites dele. E, em ambos os casos, houve um aceite dessa atitude para um fim específico. Mas é difícil abrir mão de um poder como esse depois de tê-lo nas mãos.

Falando de Ribeirão, como você avalia o papel de Baleia Rossi no cenário nacional e a possibilidade de composições futuras?

Ele evita atrito. Senta com todo mundo. Não creio que aceite uma vice em uma chapa presidencial. É mais estratégico permanecer na presidência do partido e no Legislativo, com ambições ao Senado. O Executivo é muito mais arriscado. Ele é experiente e deve optar por uma decisão conservadora.

Sobre o governo Ricardo Silva: como você analisa este primeiro ano e dois meses de gestão? Dá para comparar com o antecessor?

O que me parece é que não ficou claro, do ponto de vista da comunicação, um planejamento para os quatro anos. Primeiro ano para isso, segundo para aquilo. Pode até existir internamente, mas não transpareceu.

A comunicação está muito focada em redes sociais, reagindo a ruídos. Nem todo mundo acompanha política por rede social. Falta mostrar um norte, um plano estruturado. Senão, fica a sensação de que administrar é apenas apagar incêndio. A comparação com Nogueira é mais analítica do que popular. A população compara quando sente na prática — saúde, trânsito, serviços. No geral, a maioria reage ao imediato.

Para fechar, há algo que considera essencial e que não abordamos?

A crise de representatividade. Há um cansaço da política; a percepção de que os políticos formam uma casta privilegiada, distante da realidade. Os privilégios do Judiciário, por exemplo, em um país com tanta desigualdade, geram indignação.

Isso acumula insatisfação. Acho que podemos viver algo semelhante a 2013 novamente. O Judiciário, ao ampliar demais seu poder, pode contribuir para isso. Quando o poder cresce demais, ninguém quer devolvê-lo. Há uma doença da vaidade e do poder que atinge várias esferas. E a sociedade vai acumulando indignação. Uma hora, isso pode explodir