'Ribeirão gera vagas, mas ainda falta qualificação'
Ismael Colosi, que atua há quase uma década no terceiro setor, acredita em bom desempenho da economia em 2026, mas vê necessidade de investimento em formação profissional
, atualizado
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A recuperação do mercado de trabalho, com perspectivas de melhora para 2026, ainda convive com um gargalo persistente: a falta de capacitação da mão de obra. Essa é a avaliação de Ismael Colosi, que atua há quase uma década no terceiro setor voltado à empregabilidade.
Administrador de empresas e comunicador, Colossi avalia que Ribeirão Preto acompanhou a tendência de melhora observada no país ao longo do último ano. Com experiência em políticas públicas de emprego e renda — tendo passado por cargos na administração municipal e estadual e atuando hoje em iniciativas voltadas à geração de trabalho e renda —, ele afirma que uma eventual queda dos juros pode ampliar o acesso ao crédito e estimular novos investimentos, criando um ambiente mais favorável à abertura de vagas.
"O que sustenta o emprego não é um pico momentâneo, mas a continuidade das políticas e a confiança de quem investe. Se os juros caírem e esse ambiente se mantiver, o mercado tende a responder positivamente", afirma.
Em entrevista ao Jornal Ribeirão, Colosi falou sobre políticas de qualificação profissional, combate ao desemprego e os desafios para ampliar a geração de vagas no mercado de trabalho. Confira.
JORNAL RIBEIRÃO - Dados nacionais indicam criação de empregos formais e ocupações informais. Ribeirão o acompanhou esse bom desempenho nacional do mercado de trabalho?
ISMAEL COLOSI - Sim. Ribeirão Preto acompanhou, apesar de ainda não termos números oficiais específicos do município. A cidade manteve uma trajetória positiva. Até novembro de 2025, foram geradas 6.876 novas vagas de emprego. No ano anterior, foram cerca de 6.000 vagas e, no retrasado, aproximadamente 6.700. A cidade mantém uma geração consistente de empregos.
Na sua avaliação, a que se deve esse bom desempenho?
São vários os fatores. Somos sede de uma Região Metropolitana com população estimada em 1,7 milhão de habitantes, e é referência regional e nacional em setores como educação e saúde com excelência em prestação de serviços e comércio: essas características atraí muitas pessoas em busca de soluções, diversão, conhecimento e negócios; sejam das cidades vizinhas, sejam de outras parte do país como estudantes universitários, por exemplo. Todo esse fluxo gira nossa economia e contribui para nosso mercado de trabalho formal estar entre os que mais empregam do país.
As previsões indicam ainda uma leve queda nos juros, o que pode estimular investimentos, facilitar o acesso ao crédito e impulsionar ainda mais a geração de empregos.
Qual é a taxa de desemprego no município?
Com uma população estimada de 731 mil habitantes, cerca de 300 a 350 mil pessoas fazem parte da população economicamente ativa. A taxa de desemprego estimada em Ribeirão Preto fica entre 4% e 6%, possivelmente abaixo da média nacional, que gira em torno de 5,2%.
Novembro teve desempenho diferente em relação a anos anteriores?
Sim. Em novembro de 2025, foram criadas cerca de 375 novas vagas. Em novembro do ano anterior, esse número foi bem maior. Isso reflete o período pós-pandemia, quando houve uma recuperação mais acelerada do emprego. Temos, portanto, algo perto de 18 mil desempregados.
Como foi esse movimento no pós-pandemia?
Em 2021, Ribeirão gerou cerca de 14 mil vagas. Em 2022, 11 mil. Depois, houve uma estabilização: 6.700 vagas em 2023, cerca de 6.100 em 2024, e para 2025 a projeção é fechar entre 4.000 e 6.000 vagas.
A que se deve essa desaceleração?
Hoje há muita oferta de vagas, mas também mais competição. Além da mão de obra formal, outras formas de renda passaram a disputar trabalhadores, como aplicativos de entrega, transporte e a informalidade. O trabalhador passa a analisar se a vaga formal é vantajosa ou se prefere alternativas de renda. O IBGE considera ocupadas também as pessoas na informalidade, como quem vende produtos na rua ou faz trabalhos eventuais.
Qual é a importância do terceiro setor para a geração de oportunidades?
A importância está nas formas de poder complementar as ações que já são realiadas pelo pode público e do setor privado, um mercado de trabalho como o de Ribeirão Preto, que abre por mês entre 10 e 15 mil vagas de empregos formais, com uma popupalção economicamente ativa, segundo o IBGE, em torno de 350 mil pessoas e em torno de 100 mil CNPJs ativos, recebe de bom grado todas as ações que encurtam o tempo e o custo entre o talento e a aoportuidade e a vaga de emprego aberta e os trabalhadores. É com o objetivo de contribuir nesse objetivo que nós do iBEE trabalhamos.
Mesmo com juros altos, a economia segue aquecida?
Sim. Apesar das taxas elevadas, a economia não desacelerou. Isso gera competição entre empresas, que passam a oferecer salários maiores e benefícios para atrair trabalhadores.
A falta de qualificação ainda é um problema?
Sem dúvida. O Brasil chegou próximo do pleno emprego, com taxa em torno de 5%, e reduziu cerca de 1 milhão de desempregados. Ainda assim, há setores com dificuldade de contratação por falta de qualificação.
Esse cenário se sustenta?
Sustenta. Em Ribeirão, mesmo com taxa baixa de desemprego, ainda há entre 17 mil e 19 mil pessoas procurando trabalho. Além disso, muitos trabalhadores buscam renda complementar, o que mantém o mercado em constante movimentação.
Quais setores lideram a geração de empregos?
Administração pública, saúde e educação seguem liderando. Desde os anos 1980, o Brasil passou por um processo de redução da indústria e fortalecimento do setor de serviços. E Ribeirão segue essa lógica. Cerca de 80% do PIB local está ligado ao comércio e aos serviços. Saúde, educação, consultoria e comércio sustentam a economia da cidade.
Considerando o cenário internacional e regional — especialmente a situação da América Latina e da Venezuela — o senhor vê possibilidade de impacto negativo ou retração na geração de vagas de emprego aqui na região?
O grande impacto que toda a situação que a Venezuela poderia causar de forma direta para Ribeirão Preto e nossa região, seria um cenário de maior instabilidade e aumento dos preços dos combustíveis por conta de uma alta no valor do petróleo; afetando custos de diesel, transporte e outros insumos, o que seria sentido de forma geral no país.
Nós exportamos US$ 298,7 milhões, sendo US$ 4,8 milhões, ou 1,62% do total, para a Venezuela, que exoirtou apenas US$ 6,2 mil, quase nada, dao Brasil.
Caso esses valores sejam impactados de forma negativa, o município não sentirá de forma acentuada, mas por se tratarem de produtos com alto valor agregado trará grande impacto para aqueles que dependem diretamente desses negócios.
Entrando no campo político: após integrar a administração pública e disputar uma vaga na Câmara, o senhor pretende voltar a concorrer a um cargo eletivo?
Acredito que, por ora, minhas maiores contribuições para a cidade estão fora do processo eleitoral, atuando por meio do Instituto Brasileiro do Emprego e do Empreendedorismo. No terceiro setor também consigo gerar impacto direto, conectar pessoas a oportunidades e colaborar com o poder público e a iniciativa privada de forma prática e contínua. O foco agora é ampliar esse trabalho, fortalecer parcerias da melhor forma que eu puder e conseguir.
No curto e médio prazo não deslumbro participar de outra disputa eleitoral.