A imprensa não pode ficar em 2016

, atualizado

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Uma denúncia não é sentença. Um pedido de prisão não é prova definitiva. Suspeitas que justificaram diligências e até prisões no início de uma investigação precisam ser reavaliadas à luz do que surgiu — ou deixou de surgir — durante a instrução processual. A imprensa precisa assumir sua responsabilidade. Não pode se limitar a repetir as narrativas do início da deflagração de uma operação como se os dez anos seguintes não existissem.

A Sevandija não pode continuar sendo noticiada apenas pelas manchetes de uma década atrás. Também não pode ser esquecida em gavetas, escaninhos ou calendários dos tribunais.

Se determinados pontos não encontraram sustentação pericial, contábil ou probatória suficiente no decorrer do processo, a imprensa não precisa ir além dos autos para apurar os fatos. A cobertura jornalística tem o dever de informar isso com a mesma ênfase dada às acusações iniciais de 2016 — especialmente quando elas não avançaram nos termos em que foram apresentadas.

Não se trata de apagar a história, reescrevê-la em favor de alguém ou negar a gravidade das suspeitas investigadas. Trata-se, simplesmente, de atualizá-la. Em uma sociedade democrática, a repercussão de uma acusação precisa vir acompanhada da repercussão proporcional de uma perícia que a contrarie, de uma prova que não se confirme, de uma imputação que seja afastada ou de uma explicação que altere o sentido inicial do fato.

O desprezo da imprensa

Os debates surgidos a partir da Operação Spoofing também tornaram impossível tratar o caso como uma fotografia congelada de 2016. Os diálogos divulgados e discutidos publicamente trouxeram questionamentos sobre estratégias de investigação, hipóteses probatórias e a falta de solidez de determinadas linhas acusatórias.

Isso não autoriza conclusões automáticas sobre a invalidade de todo o trabalho realizado. Mas obriga a imprensa, o Ministério Público, o Judiciário, os advogados e a sociedade a olhar o processo com mais cuidado.

Quando há menções a "pescaria probatória", frustrações com a falta de confirmação de hipóteses de superfaturamento, perseguição, pressão psicológica sobre acusados e divergências em torno de apontamentos técnicos, esses elementos merecem apuração jornalística séria, clara, investigativa, contextualizada e responsável.

A Sevandija precisa chegar ao fim, mas a história ainda não foi totalmente contada. A informação correta não é a que protege uma versão. É a que resiste à passagem do tempo, à conferência dos documentos e ao contraditório.

Os 25 condenados em primeira instância têm direito ao devido processo legal e a uma decisão em prazo razoável. A cidade tem direito de saber se houve crimes, quem os praticou, qual foi o prejuízo efetivamente comprovado e quais medidas serão tomadas.

A imprensa, por sua vez, tem o dever de acompanhar todas as fases dessa história, inclusive aquelas que corrigem, relativizam ou desmentem as versões midiáticas mais barulhentas do início da operação.

Ângelo Invernizzi Lopes, é colunista do Entrelinhas dos Poderes, sob a alcunha de Paulo Sartre. É ex-secretário da Educação da gestão Dárcy Vera, condenado em primeira instância aguarda a continuidade processual.