Obras, falhas e o prejuízo no comércio: a Via-sacra da 9 de julho
O que deveria ser a entrega definitiva de uma revitalização histórica transformou-se em um canteiro de obras intermitente
, atualizado
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A Avenida Nove de Julho, em Ribeirão Preto, vive um novo capítulo de uma crise que se arrasta há anos. O que deveria ser a entrega definitiva de uma revitalização histórica e a implantação de um corredor de ônibus moderno transformou-se em um canteiro de obras intermitente. Neste mês de março, a via volta a apresentar pontos de interdição, cavaletes e cones, expondo falhas estruturais no pavimento de paralelepípedos que custou mais de R$ 32 milhões aos cofres públicos.
A situação atual é marcada por pedras soltas, vãos excessivos entre os blocos e pontos de erosão que surgiram após as chuvas de verão. Na extensão da Nove de Julho entre a Avenida Independência, além da interdição do quarteirão até a rua Floriano Peixoto, a reportagem identificou mais quatro pontos de atenção até a rua São José. A empresa responsável pela execução, Era-Técnica Engenharia Construções e Serviços Ltda., já foi notificada pela Prefeitura de Ribeirão Preto para corrigir as irregularidades. No entanto, o Secretário de Obras Públicas, Walter Telli, admitiu recentemente que o serviço apresenta vícios de execução tão graves que a administração municipal cogita a necessidade de retirar o pavimento e refazer trechos inteiros.
Em nota, a prefeitura afirmou que o tombamento da via dificulta a manutenção.
"Por se tratar de via tombada como patrimônio histórico, a avenida Nove de Julho segue diretrizes técnicas específicas definidas pelo Conselho de Preservação do Patrimônio Cultural do Município (CONPPAC). Entre essas determinações está a impossibilidade de realizar rejuntamento entre os paralelepípedos, conforme previsto no projeto elaborado na gestão anterior", diz o texto encaminhado ao JR.
Bloqueio atual deve durar até o final da semana
O atual bloqueio na 9 de julho - no acesso à Avenida Independência - começou no dia 17 de março com a promessa de conclusão das intervenções em 10 dias. Se o cronograma for mantido, a via deve ser liberada a partir de sexta-feira (27).
Como rota alternativa, os motoristas que seguem pela Rua Floriano Peixoto, no sentido da Avenida Independência, devem atravessar o cruzamento com a Avenida Nove de Julho e, na sequência, virar à esquerda na Rua João Penteado para acessar a avenida e seguir o trajeto de interesse.
A Secretaria de Obras informou que acompanha tecnicamente o trabalho na via.
'Eu tô quebrada, já não suporto mais essa paralização'
Para os comerciantes da Nove de Julho, a obra não é apenas um transtorno logístico, mas uma ameaça direta à sobrevivência dos negócios. A "via-sacra" de interdições tem levado lojistas ao limite financeiro. O relato de uma comerciante local, que prefere não ser identificada, resume o sentimento de abandono e desespero de quem mantém as portas abertas na avenida.
"Eu tô quebrada já, não suporto mais essa paralização. Ao todo, intercalado, teve a construção do viaduto, acabou e começou a reforma da avenida, um total de 6 anos. Fiz um empréstimo de 20 mil reais na última semana para manter os funcionários e as portas abertas. Não consigo pagar as contas", desabafa a lojista que atua há 15 anos na avenida.
A queda no movimento é drástica. Com a via bloqueada por cavaletes e a dificuldade de estacionamento, os clientes evitam a região. O custo fixo, no entanto, permanece alto.
"Agora mais de uma semana e do jeito que tá indo vai levar uns dois meses para arrumar, nosso movimento parou. O faturamento caiu 50%, como eu pago o aluguel, folha de pagamento, IPTU que aqui é uma fortuna, este prédio é 12 mil reais, quem vai arcar com isso?", questiona.