Polo financeiro do PCC, Ribeirão entra na rota de delações do MP

Investigação apura elo entre organização criminosa e empresas que tiveram atuação na cidade; setor agro concentra suspeitas

, atualizado

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Empresas ligadas ao PCC movimentaram R$ 1 bilhão, diz Receita
Empresas ligadas ao PCC movimentaram R$ 1 bilhão, diz Receita - Foto: Agência Brasil
Empresas ligadas ao PCC movimentaram R$ 1 bilhão, diz Receita - Foto: Agência Brasil

Um dos maiores esquemas de lavagem de dinheiro já desvendados pelo Ministério Público de São Paulo expôs uma engrenagem que começa no coração do agronegócio de Ribeirão Preto e desemboca no topo do mercado financeiro da Faria Lima. No centro dessa teia, batizada de Operação Carbono Oculto, estão usinas da região, a cadeia de combustíveis e a fintech BK Bank — cuja sucursal ribeirão-pretana concentrou a maior parte das movimentações ilícitas atribuídas a operadores ligados ao PCC.

Enquanto o MP negocia uma delação premiada "abrangente" com os principais alvos da investigação, cresce a expectativa de que a colaboração revele, em detalhes, como o dinheiro do crime organizado se misturou à economia formal e quais agentes públicos e privados ajudaram a sustentar esse sistema, que teria movimentado cerca de R$ 54 bilhões em lavagem de dinheiro a partir do setor sucroalcooleiro paulista, com epicentro na região de Ribeirão Preto.

Entre os possíveis delatores estão os empresários Mohamad Hussein Mourad, o "Primo" ou "João", e Roberto Augusto Leme da Silva, o "Beto Louco", apontados como líderes da engrenagem financeira ligada ao PCC e ainda foragidos. Beto Louco conhecido no meio político por sua articulação e brindes de canetas emagrecedoras "Ozempic" para agentes políticos, entre eles vereadores e deputados em Brasília, São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto. Para o MP, o esquema "não existiria se não tivesse agente público corrupto e facilitador".

FINTECH DO MAL

Nesse cenário, a fintech BK Bank aparece como peça-chave para transformar o dinheiro sujo do etanol adulterado e da cadeia de combustíveis em ativos aparentemente legítimos. Via banco digital, o grupo aplicava os valores em fundos de investimento, comprava imóveis na planta, veículos de luxo, casas e participações em empresas, além de custear o padrão de vida dos investigados.

O Gaeco atribui a Mohamad Mourad e Roberto Silva a liderança de um esquema que, além de lavar dinheiro, comprou ao menos quatro usinas em São Paulo por meio de fundos ligados à organização criminosa, manteve parcerias com outras duas e passou a assediar proprietários de terras de cana, oferecendo arrendamentos acima da média, muitas vezes em dinheiro vivo.

Na terceira etapa, a engrenagem avançava para a adulteração do etanol: a produção das usinas era enviada a distribuidoras como a Rede Sol Fuel, onde o combustível era misturado com metanol importado ilegalmente pelo Porto de Paranaguá (PR) e revendido como etanol puro.

A Rede Sol Fuel Distribuidora S.A. também é alvo das investigações, suspeita de integrar a malha que conectava o parque produtor da região de Ribeirão às bombas de combustíveis em todo o estado.

COMPLIANCE

Além da Carbono Oculto, outra frente, a Operação Compliance Zero, mira as conexões da Reag — gestora de fundos alvo de mandados e recentemente liquidada extrajudicialmente pelo Banco Central — com o Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Em depoimento à Polícia Federal sobre supostas fraudes envolvendo o Master, o banqueiro foi questionado sobre relações com políticos, mas evitou citar nomes e negou vínculo com negociações de compra de parte do banco pelo BRB, operação barrada pelo Banco Central.

 

Para o Ministério Público, agentes políticos fizeram parte do esquema

No MP paulista, a leitura é de que a Carbono Oculto ultrapassa o PCC e alcança uma rede empresarial e institucional que só se manteve de pé com a ajuda de agentes públicos e, possivelmente, de agentes políticos. O procurador-geral de Justiça, Paulo Sérgio de Oliveira e Costa, afirma que qualquer pessoa envolvida "em qualquer etapa dessa cadeia criminosa" será chamada a se explicar e poderá responder nas esferas penal, administrativa e cível, deixando claro que a trilha do dinheiro que passa por Ribeirão Preto ainda deve produzir desdobramentos para além do setor sucroalcooleiro.

Cana centralizou lavagem de dinheiro, mostra investigação

Embora a narrativa pública inicial tenha se concentrado em fundos da Faria Lima e grandes players do mercado financeiro, a denúncia do Gaeco e da Receita Federal mostra que o coração operacional da Carbono Oculto pulsa em Ribeirão Preto e região.

Três das quatro usinas administradas pelo grupo ligado ao PCC em São Paulo estão na região, o que fez do eixo canavieiro a principal frente de financiamento do crime organizado, incluindo aspectos como lavagem de dinheiro e financiamento de atividades criminosas.

Segundo a acusação, o fluxo começava nas usinas no entorno de Ribeirão, seguia por distribuidoras, refinarias, transportadoras e armazéns, até desembocar em postos de combustíveis e lojas de conveniência em todo o estado.

A partir daí, o dinheiro retornava ao o sistema financeiro por meio da fintech BK Bank, cuja "sucursal Ribeirão Preto" concentrou, sozinha, cerca de 78% da movimentação ilícita identificada, superando de longe a própria matriz do BK, na Faria Lima, em São Paulo.