Extrema direita ou extrema ignorância? O papel dos universitários das gerações "Y e Z"

Universitários das redes particulares entraram na eleição; um olhar de Ribeirão Preo pelo Brasil

, atualizado

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Universitárias da Unip Curso Psicologia noturno em comunidades
Universitárias da Unip Curso Psicologia noturno em comunidades - Foto: Foto das redes
Universitárias da Unip Curso Psicologia noturno em comunidades - Foto: Foto das redes

O bolsonarismo nunca foi direita, tampouco extrema direita, aproxima-se mais da extrema ignorância, ignorantes cooptados alienados manipulados por ideais e interesses de uma família.

Os genz's (Geração Z) e os millennials (Geração Y) são criticados por uma suposta alienação por colocarem valores de saúde mental à frente de muitos conceitos cotidianos de cobranças de condutas profissionais como “vestir a camisa”, ou de agir como patrão, empreendedor quando se trata, na prática, de um simples MEI.

Foi justamente essa geração, tão acusada de desinteresse político, que ajudou a desempatar o jogo nas eleições. Não foi um engajamento espontâneo de campanha, com bandeiras e comícios organizados de cima para baixo. Começou pelo mais difícil: entender o que estava acontecendo.

Nas universidades inclusive particulares, onde a politica mal chegava alcançaram de público de classe média e abaixo, em grupos de WhatsApp e por meio de canais de comunicação, "Exército de Lula" fio de ligação direta com Brasília, jovens começaram a analisar propostas, perceber incoerências entre narrativa e prática, comparar plataformas e discutir soluções. Entenderam que consciência política não se resume a opinião nas redes: exige voto.


A partir daí, veio a mobilização. Universitários passaram a conversar com pais, avós, tios, vizinhos e conhecidos sobre a importância de comparecer às urnas. Não bastava votar: era preciso levar alguém que, no primeiro turno, tinha ficado em casa, daí o "leve seu velho para votar".

Em Ribeirão Preto, esse movimento ficou evidente. Numa cidade predominantemente de Direita, marcada historicamente por altas taxas de abstenção, o segundo turno registrou expressiva queda no número de ausentes, de votos brancos e de votos nulos em relação ao primeiro turno. A abstenção recuou de 23,75% para 21,02%, com 12.948 eleitores a menos fora das urnas; os votos brancos caíram de 6.806 para 4.372 e os nulos, de 12.318 para 10.410.

Esse dado importa porque contraria uma tendência histórica: no Brasil, o segundo turno costuma registrar mais abstenções do que o primeiro. Em 2022, o movimento nacional também foi inverso, com queda da abstenção entre os dois turnos.

Ribeirão Preto é apenas um destaque de um fenômeno maior. Jovens que muitas vezes são tratados como apáticos saíram do discurso e foram para a rua, para a comunidade, para dentro das casas. Conversaram, explicaram, convenceram. Não foi apenas engajamento eleitoral: foi exercício de cidadania.

A proeza da ignorância


O bolsonarismo conseguiu uma proeza que a sociologia e a antropologia nunca imaginaram ser possível: criar o negro racista, o gay homofóbico, o trans transfóbico, a mulher contra a Lei Maria da Penha, o indígena contra as terras originárias, o pobre de direita, o trabalhador contra os direitos trabalhistas e o patriota que bate palma para o estrangeiro levar as riquezas do país e batendo continência para a bandeira dos Estados Unidos e de Israel.

O bolsonarismo conseguiu reunir, num único cercado, a maior quantidade de ignorância por metro quadrado do planeta Terra. Lá está o sujeito contra a vacina, mas que toma remédio de verme. O médico contra a ciência. O antivacina que rejeita a própria proteção contra a doença. O consumidor que defende o tarifaço. O pobre sem plano de saúde que é contra o SUS. O trabalhador contra o fim da escala 6 por 1 e contra o contrato de trabalho com direitos adquiridos, o estudante contra a escola pública e a mulher sem direitos, inclusive de votar. 

Lá está o policial a favor da milícia. O cidadão conservador do bem que diz defender a família, mas com amante. O que defende a propriedade privada, mas quer invadir e quebrar o patrimônio público. O que é contra o aborto legal, mas defende o assassinato de quem pensa diferente. É uma inversão completa de valores, em que a hipocrisia é a regra e a ignorância é tratada como virtude.

"Não são posições políticas amadurecidas. São sintomas de um projeto que transforma ignorância em identidade, ódio em bandeira e contradição em fé".

A geração que desempatou


Por isso, o protagonismo das novas gerações é tão significativo. Uma geração criticada por ser “alienada” decidiu entrar no jogo, analisar os lados, reconhecer as incoerências e agir. Ela entendeu que saúde mental, diversidade, direitos trabalhistas, ciência, saúde pública e democracia não são pautas separadas. São partes da mesma disputa: a de decidir se o país avança ou se afunda na ignorância.

O bolsonarismo apostou que o medo, o ódio e a desinformação seriam mais fortes que a consciência. Apostou que o trabalhador continuaria defendendo o patrão que o explora, que o pobre seguiria torcendo contra si mesmo e que a ignorância venceria a informação.

Errou. Porque, quando o jovem entende que o voto não é um favor a nenhum candidato, mas uma ferramenta de defesa da própria vida, o jogo muda. Quando ele sai da bolha, conversa com a família, enfrenta o preconceito e leva alguém à urna, a ignorância perde terreno. O voto não resolve tudo. Mas, quando deixa de ser tratado como obrigação burocrática e passa a ser compreendido como instrumento de resistência, ele vira arma.

Retaliação


É triste chegar ao fim de uma eleição e encontrar mensagens como as que circulam nas redes: anúncios de suspensão de doações, acompanhados de desprezo por quem precisa de ajuda. Quando a decepção eleitoral vira justificativa para negar uma cesta básica, a solidariedade revela sua condição: ajudar, sim, desde que o necessitado pense e vote como quem doa. Mais grave ainda é defender que a preferência política seja usada como filtro de contratação — sobretudo quando essa orientação parte de quem deveria cuidar da saúde e da dignidade humanas. Não se trata mais de discordar de um projeto de país, mas de desejar que o outro passe fome ou fique sem trabalho por exercer o direito de escolher. Nesse ponto, a bandeira da família, da fé e dos bons costumes cai por terra. O que sobra é a crueldade, disfarçada de convicção política.