Maison: História de Trabalho, Vitória sobre a Crise Política em Ribeirão
"A História da elefanta — que trabalhou até a velhice para se sustentar — superou a ignorância política de Ribeirão — evoca, agora, a necessidade de paz."
, atualizado
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Maison não é apenas uma elefanta no Bosque e Zoológico Fábio Barreto. Ela se tornou um personagem da história recente de Ribeirão Preto, misturando circo com política, política pública, educação ambiental, mobilização popular e disputa judicial. Hoje, seu futuro continua em aberto, com a possibilidade de permanência na cidade ou transferência para um santuário, enquanto o Tribunal de Justiça de São Paulo analisa o caso.
Maison, antes de Ribeirão Preto
A história de Maison começa muito antes de ela chegar ao Bosque. Durante cerca de 40 anos, ela viveu no mundo do circo, ligada ao Circo Biriba /Circo Kroner, da família de Carlos Antônio Spíndola, o Palhaço Biriba. Em outubro de 2010, num contexto de mudança legal e de esgotamento das condições de utilização de animais de picadeiro de circo, iniciou luta para uma entrega espontânea, processo de adoção, mediada pelo Ibama, para que recebesse um destino mais digno.
Essa entrega não foi um gesto simples nem puramente administrativo. Era o fim de uma longa fase de trabalho, exposição e deslocamento, marcada por dificuldades de sustento e por uma condição já envelhecida para uma elefanta que havia passado décadas em espetáculos. A saída de circulação abriu uma pergunta que mudaria o curso da história local: para onde Maison iria, e quem assumiria a responsabilidade por ela?
Pedido de Socorro à Ribeirão Preto
O primeiro contato para trazer Maison a Ribeirão Preto partiu de Max Leandro Spíndola, filho de Carlos Antônio Spíndola, que procurou Alexandre Gouveia, então chefe do Bosque Municipal, em 2008. Naquele tempo, o espaço ainda não tinha o status de zoológico, o que torna o episódio ainda mais interessante: a ideia nasceu num momento em que o Bosque era, ao mesmo tempo, equipamento público, projeto ambiental e espaço de possibilidades.
Max levou a Alexandre Gouveia a angústia da família diante do futuro da elefanta, num momento em que o debate nacional sobre animais em circos já se intensificava. O pano de fundo era o Projeto de Lei nº 7291/2006, que buscava proibir o uso de animais em picadeiros, projeto que ainda hoje engavetado, mas já irradiava efeitos políticos e simbólicos pelo país. O caso de Maison, portanto, começou a ser construído antes mesmo de ela pisar em Ribeirão Preto.
A família, o circo e a busca de saída
Sem condições de manter a elefanta de forma adequada, a família buscou alternativas para que ela continuasse vivendo de modo sustentável. Em determinado momento, Maison chegou a ser “arrendada” para outros circos, inclusive em países vizinhos, onde o uso de animais em picadeiro ainda era legal, numa tentativa de prolongar sua permanência no circuito enquanto não surgia uma solução definitiva. Esse detalhe é importante porque mostra que a história dela não foi uma transição limpa de um cativeiro para outro, mas um caminho cheio de improvisos e limites materiais. Vale dizer, que Maison ainda trabalhava com idade avançada para tanto, naquela época.
A imagem que emerge daí é forte: uma elefanta já idosa, treinada por décadas, mas ainda presa às condições econômicas do próprio universo que a explorou. Seu destino não dependia só de afeto ou vontade política; dependia também de orçamento, logística, autorização ambiental e infraestrutura urbana. Maison, nesse sentido, já carregava no corpo a contradição entre sobrevivência e dignidade.
A travessia institucional
Quando o assunto chegou ao Bosque Municipal, Alexandre Gouveia levou o caso à Secretaria do Meio Ambiente, buscando tanto acolher o animal quanto fortalecer a visitação ao equipamento público. A proposta logo ultrapassou o campo ambiental e entrou na Secretaria Municipal da Educação, onde existia um programa forte de educação ambiental e um espaço já utilizado como laboratório a céu aberto no Zoo de Ribeirão Preto. A questão deixou de ser apenas “onde colocar a elefanta” e passou a ser “como fazer dela parte de uma política pública”.
As conversas entre as duas secretarias se arrastaram por quase um ano, até 2010, em um processo repleto de protocolos, conversas e mediação do Ibama. A exigência era clara: Maison não poderia ser tratada como animal depositado em qualquer canto, porque precisava de tratador, recinto adequado e compromisso de que não voltaria ao picadeiro. O recebimento dela, portanto, foi também um contrato ético entre governo e natureza.
As assinaturas do compromisso
Na tramitação, o papel de Maria Débora Vendramini Durlo ganhou destaque como representante da Educação que anuiu ao projeto de educação ambiental e ao custeio inicial da iniciativa. Mariel Silveira, então secretária do Meio Ambiente, também participou do arranjo institucional. E a então prefeita Darcy Vera assinou a carta de compromisso com o Ibama, o que deu peso político à decisão.
Essas assinaturas são importantes porque mostram que Maison não foi apenas “acolhida”; ela foi incorporada a uma política pública que envolvia múltiplos níveis de governo. Havia intenção formal, responsabilidade institucional e uma expectativa de que a cidade sustentasse o gesto com estrutura real. A partir dali qualquer recuo deixaria de ser apenas administrativo e passaria a ser também moral e político.
O espaço provisório
O Ibama autorizou a chegada da elefanta, mas exigiu inicialmente um espaço provisório, com prazo definido para a criação de um recinto definitivo. Isso significa que a cidade não recebeu Maison sem condições; recebeu com uma tarefa: construir uma solução adequada dentro de tempo e limites técnicos. O recinto provisório foi o primeiro abrigo, mas também uma espécie de promessa em aberto.
Maison chegou a Ribeirão Preto em outubro de 2011 e passou os primeiros meses numa área de transição, enquanto o futuro dela ainda estava sendo desenhado. A história dela, nesse ponto, é quase cinematográfica: uma elefanta retirada do circuito dos circos, trazendo consigo o peso da idade, da viagem e da expectativa pública, entrando numa cidade que ainda precisaria aprender a cuidar dela.
A viagem de 14 dias
Antes de chegar ao interior paulista, Maison enfrentou um transporte de 14 dias desde o interior do Chile. A viagem foi longa porque a família não tinha condições de arcar com um deslocamento rápido ou simples, e o próprio contexto de manutenção do animal era difícil. A travessia virou parte da memória da cidade porque condensou a ideia de abandono, resgate e esforço coletivo.
Esse detalhe ajuda a entender por que a história tocou tanto as pessoas depois. Não era só uma elefanta chegando ao zoológico; era uma sobrevivente atravessando fronteiras, desgaste e incerteza para encontrar, ainda que provisoriamente, um lugar de repouso. A demora da viagem também reforçou a percepção de urgência em torno do bem-estar dela.
O plano definitivo
Com o tempo, ficou claro que o recinto provisório não bastaria. O Ibama queria uma solução permanente, e o relógio corria contra a administração municipal. A construção por meio da administração direta se mostrava lenta demais, com prazo de licitação e contratação que poderia chegar a dez ou 14 meses, o que inviabilizava o calendário exigido.
Nesse impasse, a CODERP assumiu a responsabilidade pelo gerenciamento da construção com a equipe de engenheiros da Cia, inicialmente fez a análise topográfica do local. Esse movimento foi decisivo porque permitiu sair do plano da promessa para o da obra. Na prática, a cidade encontrou uma saída institucional para não perder Maison e, ao mesmo tempo, cumprir as exigências de acolhimento.
O custo da engenharia política
O projeto exigia grande estrutura e a obra definitiva foi tratada como uma engenharia pública e privada ao mesmo tempo. A administração direta foi considerada lenta demais, e a solução acabou sendo a mobilização da iniciativa privada para viabilizar a construção e parte do custeio. Assim, o recinto deixou de ser apenas um espaço para animal e virou também uma decisão sobre como a cidade investe em seus símbolos.
Esse é o ponto em que Maison deixa de ser só uma elefanta e passa a ser um teste de prioridades. A obra foi tratada como gasto, mas também como política ambiental, educação pública e ativo simbólico do Bosque. Em cidades médias, raramente um animal concentra tantos interesses ao mesmo tempo.
A crise política
Foi justamente aí que a história ficou mais tensa. Mesmo com a verba carimbada da Educação para educação ambiental, projeto e recursos do Governo Federal, destinado exclusivamente para o Projeto da Elefanta Maison, vereadores em campanha eleitoral passaram a questionar o investimento no momento em que a prefeitura enfrentava problemas reais, como filas em postos de saúde. A ex-vereadora Glaucia Berenice, do PSDB, tornou-se uma das vozes mais duras ao questionar por que não se investia em UBS e UPAs em vez de um recinto para a elefanta.
O problema é que comparação, distorcida pela então vereadora Gláucia Berenice, não se sustentava de forma direta, porque o recurso da educação ambiental tinha finalidade específica e não poderia simplesmente remanejado e utilizado em investimentos a saúde. Ainda assim, o debate produziu desgaste, e o governo municipal entrou em zona de insegurança. Maison passou a ser, ao mesmo tempo, uma causa. peso e um incômodo gerado pelas falas de vereadores em um momento sensível da administração.
O risco de colapso
A pressão política foi tão forte que o próprio governo chegou a suspender os investimentos, cancelar a construção e a questionar a manutenção da elefanta. O caso se tornou sensível o bastante para colocar as secretarias envolvidas sob ameaça de exoneração, e cogitou-se até renúncia de todos os integrantes do quadro das duas pastas. A cidade, que havia começado o processo com discurso de acolhimento, passou a ensaiar um recuo.
É aqui que a história ganha sua camada mais dramática. O que havia sido firmado com o Ibama, com a Educação, com o Meio Ambiente e com a prefeita, podia desmanchar-se sob pressão eleitoral e administrativa. Maison correu o risco de deixar de ser um compromisso da cidade para virar um problema a ser devolvido.
O surgimento de “Fica Maison”
Nesse vácuo, nasceu a mobilização popular. Primeiro, as escolas particulares entraram em cena, especialmente as da elite, que utilizavam o Zoológico como ambiente de Educação Ambiental pedindo a permanência da elefanta. Depois, o movimento se espalhou por redes municipal e estadual, chegando a envolver mais de 120 mil alunos entre estudantes da rede privada, pública municipal e estadual.
A campanha “Fica Maison” virou um dos pontos mais fortes da memória coletiva de Ribeirão Preto. O que era disputa técnica tornou-se emoção cívica, e a cidade passou a defender aquilo que já sentia como seu. O caso mostra como, às vezes, um animal se transforma em espelho das afeições e contradições de um município inteiro.
A cidade toma partido
A pressão social fez com que a prefeitura buscasse mais prazo e abrisse espaço para a solução definitiva. A iniciativa privada então assumiu a construção do recinto permanente e ainda custeou, por um período, tratador e manutenção da elefanta. A decisão, em vez de apagar o conflito, o transformou em memória positiva: Maison ficou, e a cidade passou a narrar isso como vitória de mobilização social.
O recinto definitivo, com 1.500 m², tanque de água profundo e estrutura de segurança, foi inaugurado como resposta concreta a esse percurso. Em março de 2013, Maison passou a viver ali de forma definitiva. O espaço, construído sob tantas tensões, tornou-se o cenário da fase mais estável de sua vida em Ribeirão Preto.
A tentativa de homenagem
Depois da disputa pela permanência, surgiu outro gesto de memória: a tentativa de dar nome ao recinto em homenagem ao Palhaço Biriba, Carlos Antônio Spíndola. Houve articulação para que o espaço se chamasse “Recinto do Palhaço Biriba”, mas a proposta não avançou. O motivo, foi o receio dos vereadores da época entenderem que o gesto poderia ser encarado como demagogia política pelos vereadores daquela Casa que inicialmente trataram mal o assunto e por vezes até a família.
Esse episódio mostra que a história de Maison também é uma história sobre reconhecimento. Não bastava manter a elefanta; havia o desejo de inscrever a origem dela na paisagem simbólica da cidade. Ainda assim, o nome não se consolidou, e o recinto permaneceu como um espaço sem batismo definitivo.
Maison em Ribeirão hoje
Com o passar dos anos, Maison passou a ser cuidada no Bosque e Zoológico Fábio Barreto com alimentação, manejo e acompanhamento veterinário, segundo a Prefeitura. O zoológico afirma que ela recebe suporte contínuo e que o local desempenha papel social importante, inclusive por ser gratuito para parte da população. Ao mesmo tempo, ativistas insistem que a vida isolada da elefanta exige outra solução.
A tentativa de socialização com Bambi, em 2020, reacendeu o debate sobre convivência, solidão e destino. Depois da saída de Bambi por decisão judicial, Maison voltou a ficar no centro das atenções como a última elefanta do Bosque. Isso intensificou o questionamento sobre o que realmente seria melhor para ela.
O presente e o risco de partida
Hoje, o caso voltou à Justiça e ao debate público, com possibilidade de transferência para o Santuário de Elefantes do Brasil, na Chapada dos Guimarães. Ativistas e ONGs defendem a mudança com base na socialização e no bem-estar da espécie, enquanto defensores da permanência lembram da idade avançada de Maison, do vínculo com os tratadores e dos riscos do transporte. A Prefeitura diz aguardar a decisão do TJ-SP e insiste que qualquer escolha será tomada com cautela e base técnica.
O risco de Maison sair de Ribeirão Preto, portanto, não é mera especulação. Ele existe como hipótese judicial e como desfecho possível de uma nova fase da história. E, se isso acontecer, a cidade perderá não só um animal querido, mas uma peça de sua própria memória pública.
O que essa história significa
Maison representa um raro encontro entre afeto popular, política municipal e debate ético sobre animais. Sua história envolve nomes, governos, secretarias, escolas, imprensa e instituições ambientais. Por isso, ela não é apenas a história de uma elefanta: é a história de como Ribeirão Preto decidiu, brigou, hesitou e finalmente abraçou uma causa que parecia pequena demais para a política, mas grande demais para ser ignorada.
Hoje, falar de Maison é falar de pertencimento, responsabilidade e futuro. E é também lembrar que a cidade já uma vez se mobilizou para dizer “fica”; agora, diante de novo risco de partida, esse velho chamado volta a ecoar.
"Vivi de perto os bastidores desta história. E, ainda que alguns fatos possam divergir da realidade por terem sido filtrados por terceiros, a essência permanece: a trajetória da elefanta que trabalhou até a velhice para sobreviver superou a ignorância política de Ribeirão e, hoje, evoca uma profunda necessidade de paz."
Ângelo Lopes, ex-diretor do Departamento Administrativo da Secretaria Municipal da Educação, na época dos fatos