ENTRELINHAS DOS PODERES

, atualizado

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A RENÚNCIA DE LINCOLN

O vereador Lincoln Fernandes (PL) parece ter renunciado à defesa na audiência da comissão processante que ouviu sua versão dos fatos sobre a prática de rachadinha atribuída a ele. Não enfrentou as evidências e limitou-se a atribuir o processo a uma perseguição política do ex-presidente da Câmara, Isaac Antunes (PL), e de um assessor dele. Advogados do vereador tentaram, sem sucesso, por três vezes, interromper o processo na Justiça, alegando nulidade na condução dos trabalhos e incompetência da atual comissão.

APREENSÃO DO PAPA

O ex-vereador Marcos Papa é formalmente investigado no âmbito da Operação Contaminatio, esquema de infiltração em prefeituras paulistas voltado à lavagem de dinheiro do PCC por meio da fintech 4TBank, cuja liderança atuava na região de Santo André. Nas redes sociais, ele confirmou o cumprimento de mandados em sua residência e disse não saber os motivos de ser investigado. A notícia foi bastante comemorada nos meios políticos, o que denota um certo "rancor" contra o ex-vereador. Mas não só isso. Em 2015, o então vereador Papa chegou a travar obras do PAC no governo Dárcy Vera. Seria um "castigo divino"?

FAST FOOD DO HAGARA

Hagara, do "Pão de Queijo", construiu sua relevância dentro de uma lógica simples e eficiente: vídeos curtos, tom elevado, agressivo e ataques diretos ao que chama de sistema. A fórmula lhe rendeu milhares de seguidores e o colocou como figura ativa na arena política. Ao mesmo tempo, o inseriu em uma dinâmica de conflito permanente, na qual a visibilidade depende da tensão e da divisão. Ao trilhar o caminho sensível da polarização, encontrou engajamento — mas também o custo inevitável dessa escolha.

MANIQUEÍSMO DIALÉTICO

Ao esgarçar um tema sensível com uma abordagem dura e rasa, ampliou o alcance do debate ao protagonizar o episódio envolvendo a escola, a comunidade e uma aluna trans. O efeito nunca é apenas engajamento: trouxe para si a reação institucional, com intervenção do MPE e do Judiciário, além da reação social de grupos diretamente atingidos. Em contextos polarizados, o discurso não termina na fala — ele reverbera, mobiliza e frequentemente radicaliza percepções. O conflito passa a ocupar o campo concreto.

ATENTADO

O atentado sofrido por Hagara não pode ser relativizado nem justificado. Ainda assim, expõe um ponto central da psicologia social da polarização: quem alimenta continuamente o embate também se torna vulnerável a ele. Nesse ambiente, não há controle pleno sobre as reações desencadeadas. Hagara deixa de ser apenas locutor e passa a ser partícipe do sistema que ajudou a tensionar, sofrendo as consequências de uma lógica que transforma adversários em inimigos. E, nesse jogo, as consequências passam a fazer parte do risco estrutural.

AVESSO DO ÓBVIO

A multa registrada a cerca de 300 quilômetros de Ribeirão, no veículo oficial utilizado pelo vereador Jean Corauci (PSD) em pleno recesso de fim de ano, expôs mais do que um deslocamento irregular: revelou inconsistências no sistema de controle da Câmara. Mas o foco agora se desloca para os bastidores: quem vazou o documento? A divulgação por um canal que não levanta suspeitas imediatas sugere intencionalidade. A pergunta é direta: a quem interessa a desmoralização do vereador?

CHESTER SALGADO

Fã de Ayrton Senna, Corauci recebeu do próprio gabinete um levantamento dos custos de fim de ano com o veículo oficial: cerca de R$ 1.500 em multas, oito dias de utilização do carro e combustível, além dos pontos lançados na CNH. O ressarcimento deve ocorrer em breve, mas com valores possivelmente mais modestos do que os inicialmente apurados, enquanto o impacto dos pontos na carteira tende a ser diluído.

POR FALAR EM PONTOS NA CARTEIRA...

O vereador Bigodini (MDB) ensaia reposicionar sua imagem ao priorizar pautas técnicas em seu retorno. No entanto, surgem agora questionamentos sobre a forma de pagamento do veículo por ele destruído no acidente que gerou sua suspensão de mandato. A hipótese levantada é a de que teria sido por meio de um empréstimo consignado. Em tempos de rachadinha, cabe a pergunta: se o vereador não recebeu salário nos últimos seis meses, quem pagou?