Corauci escapa de cassação e Lincoln se beneficia de arquivamento empático de vereadores

Vereadores "aguentam" novo pedido de cassação de Lincoln por uso irregular de veículo?

, atualizado

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Veiculo Oficial do Gabinete do vereador Jean Corauci flagrado em radar
Veiculo Oficial do Gabinete do vereador Jean Corauci flagrado em radar - Foto: Reprodução: Guia Multa
Veiculo Oficial do Gabinete do vereador Jean Corauci flagrado em radar - Foto: Reprodução: Guia Multa

A Câmara de Ribeirão Preto resolveu entregar ao público mais um capítulo da sua tradição de tratar veículo oficial como extensão de mandato, rotina e, ao que parece, vida privada. Jean Corauci (PSD) e Lincoln Fernandes (PL) escaparam da cassação por falta de decoro parlamentar no episódio envolvendo uso irregular de carro oficial além de declarações falsas, mentirosas em documentos administrativos oficiais com informações que não se sustentam diante das imagens e dos registros de deslocamento. Lincoln, ironicamente aguarda novo pedido de cassação. 


Corauci teve o pedido de cassação rejeitado por 18 vereadores, apesar da acusação de uso do veículo oficial durante o recesso e da aparente declaração falsa nas planilhas de quilometragem. No papel, tudo deveria ter sido simples: deslocamento oficial precisa de comunicação, justificativa e ciência da presidência da Casa; na prática, a Câmara continua operando como se norma interna fosse sugestão decorativa.


Lincoln, por sua vez, viu no desgaste do colega uma espécie de amparo político antecipado. O arquivamento do caso de Corauci funcionou como um alívio conveniente para quem também responde por uso irregular de veículo oficial em deslocamento para Jaboticabal, sob a narrativa quase poética de um “encontro de amigos na madrugada de Jaboticabal”, fórmula que, em Ribeirão Preto, parece bastar para tentar transformar viagem sem comunicação em agenda pública.


O detalhe mais incômodo para a biografia política de Lincoln é que o episódio do carro oficial não veio sozinho. Ele já enfrenta processo disciplinar por suspeita de rachadinha, com pelo menos três ex-assessores citados na investigação, em um enredo que envolve depoimentos, divergências, muitas provas e a sombra de devolução de parte dos salários para permanecer no gabinete.


Blindagem e Corporativismo
A impressão que fica é a de que parte dos vereadores de Ribeirão Preto descobriu uma regra moral própria: carro oficial é público quando convém, privado quando estaciona na porta do interesse particular. E, para completar o circo, ainda há quem faça questão de não adesivar os veículos, como se a ausência de identificação fosse um gesto de discrição institucional e não de resistência à transparência o caso especifico dos dois vereadores em tela.


Corauci, pode ter saído aparentemente ileso, se considerarmos apenas o destaque da votação da última sessão, mas o vereador protagonizou cenas bizarras, quando fugia dos questionamentos nos corredores e escadarias da Câmara Municipal que o prosseguirão para o tempo que durar sua carreira política, além de ser desmoralizado em uma sessão que presidia sobre um pedido de cassação de um colega.


O desgaste do Corauci, como descrito, foi real, e o arquivamento não apaga isso; apenas transferiu a sensação de impunidade para outro andamento processual e para a expectativa de uma atuação mais firme do Ministério Público. Em casos como esse, a Câmara parece não ter condições éticas de julgar seus pares deixando ao MP aquilo que deveria resolver internamente: ordem, coerência e consequência.


No caso de Lincoln, a ironia fica ainda mais espessa porque o arquivamento do processo contra Corauci acabou servindo como vento favorável para quem também deveria estar sob o mesmo escrutínio. Há até quem veja nisso uma coincidência útil demais para ser apenas coincidência, uma daquelas manobras que fazem parecer que o calendário da Câmara trabalha menos com ética e mais com oportunidade política.


Lincoln, que tenta se apresentar como vitorioso no vácuo deixado pelo colega, continua exposto em duas frentes: o uso do carro oficial em viagem não comunicada e a denúncia de rachadinha, que atinge o coração da relação entre gabinete, dinheiro público e poder político. Em Ribeirão, o problema já não é só o uso irregular do veículo; é o método, a cultura e a naturalização de que mandato pode ser administrado como patrimônio pessoal.


Se a lógica interna da Casa continuar essa, basta esperar o próximo escândalo para que o anterior pareça pequeno, o que é quase uma pedagogia do cinismo. E os “amigos de Jaboticabal”, nessa história, viram o pretexto perfeito para um deslocamento que a documentação pública deveria explicar com clareza, mas que aparece envolto na névoa típica dos controles mal prestados.


No fim, a Câmara de Ribeirão Preto oferece ao eleitor uma lição amarga: quando o controle interno falha, o carro oficial vira símbolo de um sistema em que a fronteira entre o público e o privado é tratada como detalhe. E, nesse tabuleiro, Lincoln até pode ter se beneficiado do desgaste de Corauci e do arquivamento do caso, mas continua devendo explicações sobre o resto da estrada.