A princesa da pipoca

Uma história que começa como um conto de fadas, mas termina como um dos crimes mais bárbaros já relatados no Brasil

, atualizado

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Talissa Berchieri
Talissa Berchieri - Foto: Divulgação
Talissa Berchieri - Foto: Divulgação

O filme retrata a trajetória de vida de Elize Araújo Kitano Matsunaga, mulher condenada pelo assassinato do marido, Marcos Kitano Matsunaga, o herdeiro da Yoki, a marca de pipocas, em 2012.

Dirigido pelo estreante em longa-metragem Felipe Vellas e com roteiro de Raphael Montes (Bom Dia, Verônica) e Mariana Torres, o filme ousa em claramente escolher um lado, o de Elize, mesmo que pudesse dar errado.

Adoro um true crime, filmes/séries que contam histórias reais de crimes. Mesmo sendo uma defensora do cinema nacional, o gênero raramente me convence quando é feito no Brasil. "Elize" provou o contrário, o longa de Vellas é amarrado, inteligente e faz com que toda a tensão e energia pesada do caso transbordem na tela.

Já conhecemos o desfecho, então, me dou ao direito de soltar spoiler. Aqui, vemos uma Elize que realmente batalha para o casamento dar certo, mas o caminho que a relação segue, com traições de Marcos, ameaças de violência e até de internação psiquiátrica, tudo isso faz com que a mulher aja para proteger a filha e a si mesma, pelo menos é isso que o filme leva o espectador a pensar na maior parte do tempo.

O Brasil registrou mais de 800 casos de feminicídio nos primeiros sete meses de 2026 (Sinesp), trazer uma história real de assassinato com base na rotina questionável do casal pode, sim, parecer um ponto de absolvição da culpada: ela evitou ser a vítima. Só que o contraponto vem com a sequência mais incômoda: Elize cortando o corpo de Marcos. Com ótimas escolhas de enquadramento para fugir do sensacionalismo e não deixar o refinamento do longa ir por água abaixo, a cena nos ajuda a lembrar que o crime foi frio e brutal. Em outro momento, vemos a Elize segurando um saco plástico no formato da cabeça de Marcos, mais uma cena de frieza chocante.

Com todas essas cartas na mesa, o filme não tenta apontar certo ou errado, o que deixa tudo mais interessante, a ideia é mostrar a complexidade da relação e das personagens, sobretudo Elize. E que trabalho impecável o de Lorena Comparato, ela constrói uma mulher cheia de nuances, com expressões sutis, sem exageros. A atriz já tinha mostrado todo o seu talento atuando em Rensga Hits e Impuros, mas aqui ela está ainda mais brilhante.

Como espectadora, já elejo a cena de Elize dando de mamar, com sangue no corpo, ao som de "O Mundo é um Moinho", uma imagem clássica do cinema nacional.

Aliás, roteiro e direção não foram inocentes. A escolha da música, para mim, também sugere absolver Elize de julgamento moral. Com trechos como "...vai reduzir as ilusões a pó...", claramente, a opção musical melancólica tenta conduzir o espectador a uma conclusão: a vida é dura, e ela fez o que foi preciso, e você, espectador, pode escolher o veredito. E o filme não fracassa, mesmo arriscando tudo ao defender essa ideia.