A água que a energia desperdiça: nexo hídrico-energético no interior paulista

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Ribeirão Preto tem uma singularidade que poucos citam quando falam de sustentabilidade urbana: a cidade bebe quase exclusivamente de um aquífero. Não há represa, não há rio captado, não há sistema de superfície como backup relevante. Tudo vem de poços que perfuram centenas de metros de rocha até encontrar o Guarani. Isso é uma bênção geológica e, ao mesmo tempo, uma dependência que poucos gestores enfrentam com o rigor que merece. Porque manter essa água chegando às torneiras custa energia. Muita energia. E o que acontece com essa energia quando falta água, ou quando o aquífero aprofunda seu nível estático, ainda é uma pergunta sem resposta pública satisfatória.
O nexo água-energia não é conceito acadêmico. É a conta que a Saerp paga todo mês. O saneamento de Ribeirão Preto consome uma parcela expressiva do orçamento público apenas para extrair, tratar e distribuir água. À medida que o uso intensivo e as mudanças climáticas pressionam o nível do aquífero, os conjuntos motobomba trabalham mais para trazer a mesma água. Mais profundidade significa mais energia por metro cúbico distribuído. É uma espiral silenciosa que corrói o orçamento público sem aparecer nos noticiários.
A engenharia tem respostas, mas elas exigem diagnóstico honesto antes de qualquer intervenção. Avaliar o rendimento real dos conjuntos motobomba instalados, estudar a viabilidade de inversores de frequência onde a curva de carga permite, programar operações para fora dos horários de ponta tarifária e integrar geração solar nos pontos de captação são caminhos com retorno mensurável. Como pesquisador e consultor em sistemas elétricos, tenho visto essa combinação de medidas transformar o perfil de consumo de sistemas de bombeamento industriais de forma significativa. O saneamento público não é diferente na física, apenas na escala e na responsabilidade.
No Brasil, cidades como Campinas e São José dos Campos já avançaram na integração entre eficiência energética e gestão hídrica dentro das suas autarquias de saneamento. No plano global, a Agência Internacional de Energia estima que o setor de água e saneamento responde por cerca de 4% do consumo elétrico mundial, com potencial de redução expressivo mediante modernização de sistemas. A pressão regulatória cresce: o novo marco do saneamento básico brasileiro estabelece metas de eficiência que, direta ou indiretamente, passam pela gestão energética.
Cuidar do Aquífero Guarani é também cuidar da forma como consumimos energia para acessá-lo. As duas agendas são inseparáveis, e tratá-las de forma isolada é garantir que nenhuma das duas avance com a velocidade que a situação exige. Ribeirão Preto tem vocação para liderar esse debate no interior paulista. Falta transformar essa vocação em política pública com metas, prazos e resultados verificáveis abertos ao cidadão.

*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável