Crédito de carbono: oportunidade real ou cosmético verde?

O mercado voluntário de carbono já movimentou bilhões de dólares, mas atravessa uma fase de perda de confiança.

, atualizado

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Em 2023, as transações reportadas somaram US$ 723 milhões, abaixo dos anos anteriores. Investigações e avaliações técnicas levantaram dúvidas sobre créditos cuja redução de emissões pode ter sido superestimada. O problema não invalida o instrumento; mostra quanto rigor sua aplicação exige. Essa distinção importa para o agronegócio do interior paulista, que tem potencial para desenvolver projetos ambientais consistentes.

A região de Ribeirão Preto reúne atividades em que vale investigar esse potencial. A substituição de combustíveis fósseis por biometano nas usinas, mudanças no manejo do solo em pomares de citros e projetos de energia solar combinados com produção agrícola podem reduzir emissões ou, em certas condições, ampliar a remoção de carbono. Nenhuma dessas iniciativas, porém, gera créditos automaticamente. É preciso demonstrar o que teria acontecido sem o projeto, medir o resultado, verificar sua duração e impedir que o mesmo benefício ambiental seja contabilizado duas vezes. O dado importa mais que a intenção.

O Brasil já deu um passo institucional: a Lei 15.042, de 2024, criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões. O desafio agora é transformar a lei em regras operacionais e critérios de integridade. A produção agropecuária primária não está diretamente submetida às obrigações do sistema, mas produtores podem encontrar oportunidades na geração de créditos. Para pequenos e médios negócios, os custos de medição, verificação e registro podem ser uma barreira. Apoio técnico e projetos coletivos podem ajudar a superá-la.

No cenário internacional, o Integrity Council for the Voluntary Carbon Market estabelece critérios para identificar créditos de alta integridade. Entre eles estão adicionalidade, quantificação robusta, verificação independente e prevenção da dupla contagem. Esses critérios também oferecem uma referência útil ao comprador: certificado e promessa, por si sós, não bastam. É preciso examinar a metodologia e os resultados de cada projeto.

Para produtores rurais e empresas da macrorregião de Ribeirão Preto, a lição é direta: um projeto bem estruturado pode abrir uma fonte legítima de receita; um crédito sem comprovação suficiente pode trazer prejuízo financeiro e reputacional. Antes de entrar nesse mercado, vale investir na pergunta certa: meu crédito resistiria a uma auditoria independente?

*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável