O engenheiro como professor: formar técnicos é estratégia de transição energética
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O Brasil precisará, até 2030, de mais de 300 mil novos profissionais qualificados para instalar, operar e manter a infraestrutura de energia renovável que o país se comprometeu a expandir. Painéis fotovoltaicos, turbinas eólicas, sistemas de armazenamento, redes inteligentes e plantas de biogás não funcionam sem engenheiros, técnicos e gestores que dominem não apenas a teoria, mas a prática complexa de integrar essas tecnologias a um sistema elétrico em plena transformação. No interior paulista, onde a transição energética já é realidade concreta nas usinas, fazendas e indústrias do entorno de Ribeirão Preto, esse déficit de mão de obra qualificada é sentido antes mesmo de ser medido.
A formação técnica de qualidade começa na universidade e começa com professores que transitam com naturalidade entre a sala de aula e o mundo real. O engenheiro que leciona eficiência energética industrial enquanto atua como consultor em plantas da região, ou que ensina mercado livre de energia com base em contratos reais que assessorou, oferece algo que nenhum livro-texto consegue replicar: a capacidade de mostrar ao aluno onde a teoria encontra a realidade e onde a realidade desafia a teoria. Esse perfil de docente, pesquisador, consultor e professor ao mesmo tempo, é o que instituições como a USP cultivam e que o mercado cada vez mais demanda.
No plano nacional, o desafio é sistêmico. O Ministério de Minas e Energia e o MEC reconhecem, em documentos recentes, que a velocidade da transição energética brasileira supera a capacidade atual de formação de recursos humanos. Programas como o PRONATEC Energia e iniciativas do SENAI buscam preencher a lacuna no nível técnico, mas a formação de engenheiros especializados, aqueles capazes de projetar microrredes, auditar sistemas industriais ou estruturar contratos no mercado livre, ainda depende fundamentalmente das universidades públicas e de seus programas de pós-graduação.
No cenário global, países que lideraram a transição energética investiram pesadamente na formação antes de colher os resultados. A Alemanha criou especializações universitárias em Energiewende ainda nos anos 2000; a Dinamarca integrou energia eólica nos currículos de engenharia décadas antes de dominar o mercado mundial do setor. O Brasil tem a chance de aprender com esses modelos e de construir, a partir de polos regionais como Ribeirão Preto, centros de excelência que formem a geração de engenheiros da transição.
Formar bem é um ato estratégico. Cada engenheiro que sai da universidade com domínio real das tecnologias da transição energética é um multiplicador, nas empresas que vai liderar, nas políticas públicas que vai assessorar, nas perícias que vai conduzir e nos alunos que, um dia, vai ensinar. A sala de aula não é o oposto do mercado: é onde o mercado do futuro começa a ser construído.
*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável