24 de julho e a fragilidade invisível da nossa rede elétrica

Compartilhar notícia

Na manhã de 24 de julho, Ribeirão Preto acordou para um dos eventos climáticos mais destrutivos de sua história. Ventos acima de 120 km/h, associados a microexplosões atmosféricas, varreram a cidade e sua macrorregião deixando um rastro que nenhum protocolo de rotina estava preparado para absorver. Cinquenta e quatro torres de transmissão de 138 kV foram danificadas ou derrubadas, comprometendo subestações inteiras. O resultado foi imediato: 333 mil clientes sem energia em diferentes municípios, num colapso que o próprio diretor-presidente da CPFL Paulista classificou como sem registros históricos no Brasil em termos de danos a torres de transmissão.
O fenômeno foi provocado pela chegada de uma frente fria que encontrou uma atmosfera extremamente aquecida sobre o interior paulista, criando condições para microexplosões, rajadas descendentes de vento extremamente concentradas, originadas em nuvens cumulonimbus de grande desenvolvimento vertical. Especialistas apontam que esse tipo de evento é detectável apenas pelo nowcasting, técnica baseada em radares que permite projeções para os próximos 30 a 60 minutos. A janela de resposta é estreita, o que torna a resiliência da infraestrutura, e não apenas a previsão meteorológica, o verdadeiro campo de batalhs.
A engenharia de redes tem respostas concretas. Automação da distribuição com chaves telecomandadas e sensores inteligentes permite isolar trechos danificados e redirecionar o fornecimento em minutos. O soterramento seletivo de cabos em corredores crítico, hospitais, poços de abastecimento, centros de comando, elimina a vulnerabilidade das redes aéreas. E a implantação de microrredes com geração distribuída e armazenamento cria ilhas energéticas capazes de operar de forma autônoma quando a rede principal colapsa, garantindo continuidade para serviços essenciais independentemente do que ocorra nas torres de transmissão.
No plano regulatório, os indicadores de qualidade da ANEEL — DEC e FEC — penalizam distribuidoras por interrupções, mas eventos de força maior frequentemente ficam fora do cômputo, reduzindo o incentivo ao investimento preventivo. É preciso avançar para um modelo que remunere a resiliência de forma explícita: distribuidoras que investem em automação e redundância deveriam ser tratadas de forma diferenciada na revisão tarifária, transformando a engenharia preventiva em negócio sustentável.
O temporal de julho não foi anomalia, foi sinal. As mudanças climáticas aumentam a frequência de eventos extremos no interior paulista, e a infraestrutura que sustenta hospitais, indústrias e o abastecimento de água não pode continuar dimensionada para o tempo médio. Ribeirão Preto precisa de uma agenda municipal de resiliência energética: diagnóstico dos pontos críticos, plano de investimento em automação e geração distribuída, e protocolos integrados entre CPFL, Defesa Civil e Prefeitura. O vento derrubou as torres. Cabe à engenharia garantir que isso não volte a custar tão caro.

*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável.