Armazenar para não desperdiçar: a peça que falta na transição energética

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Ribeirão Preto e sua macrorregião vivem uma contradição crescente. De um lado, usinas sucroalcooleiras, fazendas e condomínios industriais expandem suas instalações fotovoltaicas e injetam excedentes na rede em horários de alta geração. De outro, a mesma rede enfrenta momentos de tensão nos picos de consumo do fim de tarde, quando o sol já não produz e a demanda residencial e comercial atinge seu máximo. Essa assimetria — energia sobrando em um momento, faltando em outro — é o principal gargalo da transição energética brasileira, e a solução tem nome: armazenamento.
Os sistemas de armazenamento de energia por baterias, conhecidos pela sigla BESS (Battery Energy Storage Systems), deixaram de ser exclusividade de projetos experimentais. Nos últimos três anos, o custo das baterias de íon-lítio caiu mais de 40% globalmente, tornando o armazenamento economicamente viável para usinas, distribuidoras e consumidores industriais de médio porte. Para as plantas sucroalcooleiras do entorno de Ribeirão, que já operam com cogeração a bagaço, a adição de um BESS permite armazenar excedentes gerados fora do horário de ponta e vendê-los quando o preço de liquidação é mais alto — transformando a gestão energética em fonte ativa de receita.
No ambiente urbano, o armazenamento abre caminho para uma nova relação entre o consumidor e a rede. Residências e comércios com painéis solares e baterias podem operar em modo de maior autonomia, reduzindo a exposição às bandeiras tarifárias e participando de programas de resposta à demanda — nos quais a distribuidora remunera o consumidor por liberar energia armazenada em momentos críticos para o sistema. A CPFL, concessionária da região, já desenvolve projetos-piloto nessa direção, sinalizando que o modelo chegará ao interior paulista antes do que se imagina.
No cenário global, o armazenamento é tratado como infraestrutura crítica da transição energética. Os Estados Unidos aprovaram incentivos bilionários para BESS no Inflation Reduction Act; a União Europeia estabeleceu metas de capacidade instalada para 2030; e a China domina atualmente mais de 70% da cadeia de produção de baterias. O Brasil, apesar do enorme potencial renovável, ainda engatinha na regulação do armazenamento — mas a Resolução Normativa ANEEL nº 1.003/2023 abriu o caminho legal para a remuneração de serviços ancilares prestados por sistemas de armazenamento conectados à rede.
Para Ribeirão Preto, investir no conhecimento e na implantação de sistemas de armazenamento é antecipar uma realidade que já está em curso. A energia gerada pelo sol dos nossos canaviais e telhados não precisa ser desperdiçada quando a rede não consegue absorvê-la — ela pode ser guardada, gerenciada e valorizada. Na transição energética, quem controla o tempo da energia controla a economia. E esse controle começa aqui.

*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável