Energia livre no campo: o mercado livre chega ao produtor rural
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Durante décadas, o produtor rural do interior paulista conviveu com a energia elétrica como um custo fixo e inegociável — paga à concessionária o que ela cobra, sem alternativa. Esse cenário está mudando de forma acelerada. A abertura progressiva do Mercado Livre de Energia, regulamentada pela ANEEL com um calendário que estende a portabilidade a consumidores cada vez menores, coloca nas mãos do agricultor e do pecuarista uma ferramenta que até pouco tempo era exclusiva das grandes indústrias: a liberdade de escolher de quem comprar energia, a que preço e de qual fonte. Para a macrorregião de Ribeirão Preto, onde pivôs de irrigação, câmaras frias, ordenhadeiras e secadores de grãos consomem energia 24 horas por dia, esse movimento representa uma virada estrutural na gestão dos custos de produção.
A lógica do mercado livre é simples na essência: em vez de pagar a tarifa regulada da concessionária, o consumidor negocia diretamente com comercializadoras ou geradores, fechando contratos com preço, prazo e fonte definidos. Para o produtor rural, isso significa não apenas a possibilidade de redução na fatura — estimada entre 15% e 25% para perfis de consumo típicos do agronegócio regional — mas também a opção de contratar energia de origem renovável certificada, agregando valor à sua produção em mercados que exigem rastreabilidade ambiental.
A migração, porém, exige preparo técnico. O produtor precisa conhecer seu perfil de carga ao longo do ano, entender os riscos de exposição ao Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) em contratos mal dimensionados e estar atento às obrigações perante a CCEE. Erros nessa gestão podem transformar a economia esperada em exposição financeira. Por isso, o acesso ao mercado livre no agronegócio passa necessariamente por assessoria técnica especializada — um campo que se abre rapidamente para engenheiros e consultores com domínio do setor elétrico e da realidade operacional do campo.
No plano global, a democratização do acesso à energia negociada é uma tendência consolidada. Na Austrália e nos Estados Unidos, pequenos produtores rurais já participam de cooperativas de compra de energia e de programas de resposta à demanda que os remuneram por flexibilizar o consumo em horários de pico. O Brasil caminha na mesma direção, e o interior paulista — com sua densidade agroindustrial e sua infraestrutura de transmissão — está entre as regiões com maior potencial para liderar essa transição.
Para o produtor de Ribeirão Preto e entorno, o mercado livre de energia não é uma abstração regulatória distante. É uma oportunidade concreta de reduzir custos, contratar energia limpa e assumir o protagonismo na gestão de um insumo que impacta diretamente a competitividade da propriedade. O campo brasileiro sempre soube extrair o melhor da terra. Agora, é hora de fazer o mesmo com a energia.
*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável.