Agrivoltaica: quando o painel solar e a lavoura dividem o mesmo espaço
, atualizado
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Quem sobrevoa os canaviais e pomares de laranja que cercam Ribeirão Preto e reigão enxerga um mar de verde que, nas próximas décadas, pode ganhar um novo brilho: o reflexo azulado dos painéis fotovoltaicos instalados entre as fileiras de cultivo. A agrivoltaica, tecnologia que combina a geração de energia solar com a produção agrícola no mesmo espaço, deixou o campo experimental e começa a transformar propriedades rurais em plataformas duplas de renda. Para uma região que é simultaneamente líder em agronegócio e abundante em irradiação solar, a pergunta não é mais se essa tecnologia chegará, mas quando e em que escala.
A lógica é interessante: painéis elevados permitem o cultivo na sombra parcial que criam abaixo, enquanto as plantas reduzem a temperatura dos módulos fotovoltaicos, aumentando sua eficiência. Pesquisas conduzidas na Europa e no Japão demonstram que culturas como alface, morango e até cana-de-açúcar podem manter ou até superar sua produtividade sob arranjos agrivoltaicos bem dimensionados. No Brasil, os primeiros projetos-piloto em culturas do interior paulista já mostram resultados promissores, com redução da evapotranspiração e ganho de qualidade nos frutos pela proteção contra o excesso de radiação direta.
O impacto econômico para o produtor rural da macrorregião é duplo. Além de manter a receita agrícola, ele passa a gerar e comercializar energia, seja para autoconsumo, seja via injeção na rede da CPFL com compensação tarifária, seja por meio de contratos no mercado livre. Para pequenos e médios produtores, esse segundo fluxo de caixa pode representar a diferença entre vulnerabilidade e resiliência financeira frente às oscilações de preço das commodities agrícolas.
No cenário global, a agrivoltaica avança em ritmo acelerado. A capacidade instalada mundial ultrapassou 14 GW em 2024 e deve quadruplicar até 2030, impulsionada por políticas públicas na União Europeia, China e Estados Unidos que reconhecem no uso duplo do solo uma resposta simultânea à crise energética e à pressão sobre terras agricultáveis. O Brasil, com sua combinação ímpar de irradiação solar, área agrícola e expertise em energia renovável, tem todos os ativos para se tornar protagonista nessa fronteira tecnológica.
Para Ribeirão Preto e sua macrorregião, a agrivoltaica representa mais do que uma inovação técnica, é uma oportunidade de liderança. Proprietários rurais, cooperativas e gestores municipais que investirem agora em conhecimento e projetos-piloto estarão posicionados para capturar os benefícios de uma tecnologia que redesenha o valor da terra. O campo e o sol sempre conviveram aqui. A novidade é que essa convivência pode agora gerar energia, renda e sustentabilidade ao mesmo tempo.
*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável.