Frio que custa caro: eficiência energética na indústria de alimentos
, atualizado
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Quem passa pelas rodovias do interior paulista raramente associa os frigoríficos, laticínios e usinas de processamento que pontuam a paisagem a um dos maiores consumidores de eletricidade do país.
A indústria de alimentos e bebidas responde por cerca de 15% de todo o consumo industrial de energia do Brasil e na macrorregião de Ribeirão Preto, onde essa atividade é bastante importante para a economia, esse peso se traduz em faturas mensais que corroem margens e competitividade. O que poucos sabem é que uma parte expressiva desse custo pode ser eliminada com tecnologia disponível, comprovada e economicamente viável.
O principal vilão energético da cadeia alimentar é o frio. Câmaras de resfriamento, túneis de congelamento e sistemas de refrigeração de processo respondem por até 70% do consumo elétrico em algumas plantas. Em laticínios da região, não é incomum encontrar compressores operando abaixo do ideal por falta de manutenção preditiva ou de inversores de frequência nos motores, perdas silenciosas que se acumulam mês a mês sem aparecer em nenhum relatório gerencial.
A engenharia de sistemas aplicada ao diagnóstico dessas plantas revela o caminho. A substituição de motores existentes por IE4 (tecnologia mais eficiente), a implantação de variadores de velocidade em bombas e compressores e a otimização dos setpoints de temperatura com base em dados reais são medidas de payback entre 18 e 36 meses. Para as usinas sucroalcooleiras do entorno de Ribeirão, a cogeração com bagaço de cana vai além: transforma a planta de consumidora passiva em produtora ativa, com excedente vendável para a rede e inserção direta no mercado livre de energia.
No plano nacional, o PROCEL e algumas legislações oferecem o arcabouço regulatório para acesso a financiamentos do BNDES em condições diferenciadas. Na Alemanha e na Dinamarca, programas de auditoria energética obrigatória para a agroindústria já colhem reduções médias de 20% a 30% no consumo sem perda de capacidade produtiva. Aderir às metas de descarbonização deixou de ser responsabilidade voluntária e tornou-se exigência concreta das cadeias globais de fornecimento.
Para Ribeirão Preto, que ambiciona consolidar seu papel como polo agroalimentar de referência mundial, a eficiência energética industrial não é um detalhe técnico relegado à sala de máquinas. É uma decisão estratégica que pertence à mesa diretora e que começa com a coragem de medir, analisar e agir sobre os dados que as próprias plantas já produzem.
*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável.