O invisível que nos sustenta: o nexo entre energia e o Aquífero Guarani
, atualizado
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Para quem vive em Ribeirão Preto, o Aquífero Guarani é muito mais do que uma reserva geológica; é a base da nossa existência e do nosso desenvolvimento econômico.
No entanto, raramente associamos a disponibilidade da água que chega às nossas torneiras ao consumo de eletricidade. O conceito de "nexo água-energia" revela que garantir o abastecimento de uma metrópole depende, invariavelmente, de uma infraestrutura energética robusta, eficiente e, acima de tudo, resiliente.
O desafio de Ribeirão Preto é singular. Como a cidade é quase totalmente abastecida por poços profundos, o custo da água está diretamente atrelado ao custo da energia necessária para o bombeamento. À medida que o nível estático do aquífero sofre variações devido ao uso intensivo e às mudanças climáticas, o esforço mecânico para extrair essa água aumenta, exigindo motores mais potentes e maior consumo elétrico. Nesse cenário, a eficiência energética deixa de ser uma opção administrativa e torna-se uma estratégia de sobrevivência ambiental.
A modernização dos sistemas de bombeamento do município, com a adoção de inversores de frequência e motores de alta eficiência, representa o primeiro passo para reduzir o desperdício de recursos públicos. No entanto, a verdadeira inovação reside na integração de fontes renováveis diretamente nos pontos de captação. A instalação de usinas fotovoltaicas dedicadas aos poços artesianos pode reduzir drasticamente a dependência da rede elétrica convencional e os custos com as bandeiras tarifárias, revertendo essa economia em investimentos na própria preservação do manancial.
Sob a ótica da engenharia e da consultoria estratégica, a gestão dessa integração oferece um campo fértil para o desenvolvimento de cidades inteligentes. A utilização de sensores para monitorar em tempo real a pressão das redes e o nível dos poços permite uma operação otimizada, evitando perdas físicas — que em muitas cidades brasileiras ultrapassam os 30% — e o consumo desnecessário de energia para bombear água que se perde no caminho.
O compromisso com o Aquífero Guarani deve ser pautado pela ciência de dados e pela tecnologia de ponta. Preservar o nosso "mar de água doce" exige que sejamos igualmente inteligentes na forma como consumimos a energia que o traz à superfície. Ao liderarmos essa discussão, posicionamos Ribeirão Preto como uma referência em sustentabilidade urbana, onde a técnica serve ao propósito maior de garantir que as futuras gerações continuem a desfrutar do maior tesouro que corre sob nossos pés.
*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável