O combustível do futuro nasce nos canaviais de Ribeirão
, atualizado
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Enquanto o mundo discute o hidrogênio como o "santo graal" da descarbonização, a resposta para a viabilidade dessa tecnologia pode estar mais próxima de nós do que imaginamos: nos canaviais que circundam Ribeirão Preto.
O hidrogênio renovável, ou de baixa emissão, surge como a nova fronteira para o agronegócio paulista, permitindo que a nossa região deixe de ser apenas uma fornecedora de açúcar e bioetanol para se transformar em um hub tecnológico de energia de altíssimo valor agregado.
Diferente do hidrogênio extraído de fontes fósseis, a rota brasileira aposta na reforma do etanol ou na gaseificação da biomassa da cana. Na prática, isso significa utilizar a infraestrutura logística e industrial que já possuímos para produzir um gás capaz de alimentar células a combustível em veículos pesados. Para o setor de transporte, que hoje é refém do diesel, essa transição representa uma ruptura definitiva com as emissões de gases de efeito estufa, mantendo a potência e a autonomia necessárias para as longas distâncias do interior.
O protagonismo de Ribeirão Preto nesse cenário é geográfico e técnico. As usinas do nosso entorno possuem a biomassa e o excedente energético necessários para abrigar plantas de produção de hidrogênio em escala industrial. Ao transformarmos essas unidades em centros de distribuição de combustível de hidrogênio, criamos uma rede de abastecimento capaz de sustentar frotas de caminhões e maquinário agrícola de última geração. É a engenharia nacional provendo soluções para o desafio global da mobilidade pesada.
Sob o olhar da pesquisa acadêmica e da consultoria estratégica, o hidrogênio renovável exige um domínio profundo sobre a integração de processos térmicos e químicos. Não se trata apenas de produzir o gás, mas de garantir sua pureza, compressão e transporte seguro. O desenvolvimento dessa cadeia em nossa macrorregião abre portas para novos investimentos em inovação e para a formação de mão de obra altamente qualificada, estreitando ainda mais os laços entre a excelência da USP e as demandas reais da indústria energética.
Para o município, o benefício vai além da preservação ambiental. A liderança na rota do hidrogênio atrai empresas de tecnologia, gera créditos de descarbonização e coloca Ribeirão Preto no mapa das cidades resilientes e preparadas para a economia de baixo carbono. O futuro da energia está sendo escrito com as moléculas que cultivamos aqui, e cabe a nós, através da ciência e do planejamento estratégico, garantir que essa riqueza tecnológica se reverta em desenvolvimento e sustentabilidade para toda a nossa sociedade.
*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável