Do descarte ao combustível: o biometano como ativo estratégico de Ribeirão

, atualizado

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Diariamente, Ribeirão Preto gera um volume monumental de resíduos sólidos que ultrapassa a marca de 700 toneladas. Embora a coleta seletiva e a reciclagem sejam pautas frequentes, a realidade é que a vasta maioria desse material ainda segue para aterros sanitários, onde o potencial energético da fração orgânica acaba literalmente enterrado. No cenário atual de transição energética global, é imperativo que deixemos de enxergar o lixo como um passivo de logística urbana para tratá-lo como um ativo estratégico para a segurança energética municipal.

O coração dessa transformação reside na Economia Circular aplicada ao biogás. Através do processo de biodigestão anaeróbia da parcela orgânica dos nossos resíduos, produz-se inicialmente o biogás. Contudo, o salto tecnológico que desejamos para Ribeirão Preto é o processo de upgrading para biometano. Esse combustível renovável possui propriedades químicas análogas ao gás natural, mas com uma pegada de carbono drasticamente inferior. Para uma metrópole com o dinamismo de nossa região, a implantação de uma usina de biometano representa a convergência entre o saneamento básico e a geração de energia de alto valor agregado, atendendo diretamente às metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 7 (ODS 7) da ONU.

O impacto prático dessa tecnologia na gestão pública é profundo. O biometano produzido localmente poderia ser utilizado para abastecer a frota municipal de veículos pesados, como caminhões de coleta e ônibus. Essa estratégia, além de reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados, também blinda o orçamento público contra as oscilações internacionais do preço do diesel. Além da economia direta com combustível, a redução do volume enviado aos aterros prolonga a vida útil dessas estruturas, criando um ciclo de eficiência financeira e ambiental que é referência em países da União Europeia.

Do ponto de vista da autoridade técnica, este modelo abre caminho para a inserção de Ribeirão Preto no mercado de créditos de carbono e nos Certificados de Garantia de Origem de Biometano. Cada tonelada de metano capturada e convertida em energia deixa de ser emitida para a atmosfera como um potente gás de efeito estufa. Isso gera ativos que podem financiar a própria expansão da infraestrutura sustentável da cidade.

A viabilização de um projeto desta magnitude exige estruturas de Parcerias Público-Privadas (PPPs) tecnicamente robustas. O setor privado aporta a agilidade tecnológica e o capital para a construção de biodigestores e sistemas de purificação modernos, enquanto o poder público garante a previsibilidade jurídica e o benefício social. Ao liderar esse debate, posicionamos Ribeirão Preto não apenas como uma cidade que gerencia seu lixo, mas como uma metrópole que utiliza a ciência e a engenharia para transformar desafios em fontes de energia, renda e qualidade de vida.

*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável