O silêncio que vem das ruas: a eletrificação do transporte em Ribeirão
Quando observamos o vaivém dos ônibus pelos corredores de Ribeirão Preto, raramente paramos para refletir sobre a complexa engenharia que sustenta o deslocamento de milhares de pessoas diariamente. No entanto, estamos diante de uma encruzilhada tecnológica e ambiental que definirá a qualidade de vida da nossa macrorregião nas próximas décadas.
, atualizado
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A transição para a mobilidade elétrica no transporte público não é mais uma tendência futurista, mas uma necessidade estratégica de planejamento urbano e resiliência energética.
Diferente do automóvel de passeio, que permanece estacionado a maior parte do tempo, a frota de ônibus opera em regimes severos e previsíveis. Essa característica transforma o transporte coletivo no laboratório ideal para a implementação de tecnologias de emissão zero. Mas a substituição do diesel pela eletricidade exige uma visão que vai muito além da troca do motor. Ela demanda uma reestruturação profunda da nossa infraestrutura de recarga e, principalmente, da forma como as garagens municipais interagem com a rede elétrica da cidade.
Nesse cenário, Ribeirão Preto possui uma oportunidade de ouro para se tornar um "hub" de mobilidade sustentável no interior paulista. Imagine o potencial de integração se utilizássemos as coberturas das escolas municipais e dos terminais de transbordo como usinas solares integradas. Essa energia, gerada localmente, poderia alimentar sistemas de armazenamento em baterias nas garagens, aliviando o sistema elétrico nos horários de pico e garantindo que o transporte não pare mesmo em situações de instabilidade na rede.
Sob a ótica acadêmica e de gestão, a eletrificação da frota municipal abre portas para conceitos avançados de cidades inteligentes, como o Vehicle-to-Grid (V2G). Nele, o ônibus deixa de ser apenas um consumidor e passa a atuar como uma bateria móvel capaz de devolver energia para a rede em momentos de emergência. É a engenharia elétrica servindo de suporte direto à segurança pública e à eficiência econômica do município.
O sucesso dessa transição, contudo, depende de uma governança robusta. As parcerias público-privadas surgem como o mecanismo essencial para viabilizar o alto investimento inicial em veículos e infraestrutura, compensado ao longo do tempo pelo baixo custo de manutenção e pela eliminação dos poluentes atmosféricos e sonoros. Para Ribeirão Preto, o silêncio de um ônibus elétrico cruzando a Avenida Independência será o som mais claro de que a cidade escolheu o caminho da inovação e do respeito às futuras gerações. Como acadêmicos e cidadãos, nosso papel é garantir que essa conexão entre ciência e gestão urbana saia do papel com a agilidade que o clima exige.
*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável