A rede elétrica de Ribeirão Preto precisa de uma "vacina"
, atualizado
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O calor intenso e as tempestades que marcam o verão em nossa região trazem sempre uma preocupação latente: a estabilidade da rede elétrica. Basta um temporal mais forte para que bairros inteiros fiquem à mercê de quedas de energia, afetando desde o conforto doméstico até o funcionamento de serviços essenciais. Mas, enquanto discutimos a poda de árvores ou a modernização da fiação, uma tecnologia silenciosa e estratégica começa a ganhar espaço e pode mudar esse cenário: as microrredes.
Diferente do modelo tradicional de distribuição, onde dependemos de uma estrutura de transmissão centralizada, passiva e muitas vezes vulnerável a quilômetros de distância, a microrrede funciona como um sistema autônomo e inteligente de energia. Na prática, imagine um hospital, uma escola municipal ou um grande centro comercial que, em vez de ser apenas um consumidor final, tenha sua própria capacidade de geração e, principalmente, de armazenamento energético.
O grande diferencial tecnológico aqui não é apenas o painel solar instalado no telhado, mas a inteligência computacional por trás do gerenciamento desse sistema. Através de bancos de baterias de alta performance e conversores eletrônicos, esses locais podem se desconectar da rede principal de forma automática durante uma falha ou apagão, continuando a operar no que chamamos tecnicamente de "modo ilha". É, em essência, uma vacina contra a interrupção de produtividade.
Para uma cidade com o perfil econômico e o dinamismo de Ribeirão Preto, investir nessa arquitetura energética vai muito além da pauta da sustentabilidade ambiental; é uma questão de resiliência econômica e segurança pública. Quando um setor industrial ou um grande complexo de serviços garante sua autonomia energética através de uma microrrede, ele protege estoques sensíveis, mantém linhas de produção ativas e, de forma indireta, alivia a pressão sobre o sistema elétrico de toda a cidade nos horários de maior demanda.
É claro que uma mudança de paradigma desse porte exige planejamento urbano rigoroso e novas formas de colaboração entre os agentes. As parcerias público-privadas (PPPs) surgem aqui como o motor necessário para tirar esses projetos do papel, especialmente em edifícios públicos estratégicos que poderiam servir de refúgio energético para a população em casos de crises severas.
O futuro da nossa infraestrutura urbana não pode mais ser apenas passivo e dependente de fios distantes expostos às intempéries; ele precisa ser inteligente, descentralizado e local. Ribeirão Preto possui os índices de radiação solar e a força econômica necessária para liderar essa transição no interior paulista. Falta agora consolidar a visão estratégica para implementar essas "ilhas de segurança" e garantir que a energia nunca deixe de fluir quando a cidade mais precisa dela.
*Engenheiro elétrico, professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA)
da USP, em Pirassununga. Especialista em energia sustentável