Para o educador e os demais entrevistados, políticas públicas para a juventude aliadas ao enfrentamento da atuação financeira do crime deveriam ser prioridade.
A população demanda combate de forma inteligente, sem ceifar a vida de ninguém, acrescentou Sara, da Favela do Rodo. Ela acrescentou que, nestas eleições, muitas propostas das campanhas estão centradas em aumento de policiamento, de encarceramento e redução da idade penal, o que preocupa, diante dos relatos de abuso e violência policial. Eu, infelizmente, já tive a casa arrombada várias vezes e vi policiais apontarem uma arma para a cabeça do meu pai, contou a estudante.
No Rio de Janeiro, especificamente, organizações e movimentos sociais foram ao Supremo Tribunal Federal solicitar que operações em favelas tenham mais planejamento e sejam realizadas com menos impacto nas comunidades. Em geral, escolas e serviços públicos fecham por causa dos tiros disparados durante os confrontos.
Portanto, para os jovens, a segurança passa por melhorias na qualidade de vida de quem vive nas favelas, imprensados entre a violência policial e o controle do crime organizado, que gere setores econômicos como internet, transporte, venda de água envasada e a própria segurança de moradores e comerciantes.
A periferia está cansada de incursão, afirmou Bruno Rafael. O medo de morar na comunidade é por causa das operações [policiais], da bala, que não é perdida, é achada em inocentes. Não tem como achar normal uma operação às 8h da manhã, com crianças indo para a escolas e gente indo trabalhar, criticou. A comunidade quer uma ocupação com responsabilidade, a bala mata pessoas como eu, emendou.
O morador de favela, avalia Bruno, apesar de diferente, em termos sociais e econômicos, busca propostas que vão desde urbanização a políticas de saúde, esporte, cultura e educação para seus filhos. Isso que a gente quer, listou.
Levar em conta a especificidade de cada favela na cidade ou no estado do Rio deveria ser uma prioridade dos governos, avalia a professora Eblin Farage, que estuda a presença do Estado nesses espaços. Há uma diversidade de cotidiano, de condição histórica e de sujeitos que não permite homogeneização, explicou.
Ela não se surpreende com a avaliação dos entrevistados, de colocar a segurança pública como uma proposta secundária para as favelas.
Não há, na história do Rio de Janeiro, uma política de segurança pública bem-sucedida, que seja referência para essas pessoas, avaliou. Para eles [moradores], a segurança são as operações, o caveirão, a violência armada e isso não interessa, não os protege.
Por outro lado, Eblin Farage analisa que os moradores têm referências de políticas habitacionais, de mobilidade urbana e educação recentes, das quais se lembram.
Cada eleição, ponderou, é uma janela para pactuação de compromissos entre candidatos e comunidades. No entanto, diante das falhas dos governos em cumprir os combinados, Eblin Farage explica que os eleitores de favelas têm apostado mais na relação com o Legislativo, ou seja, em deputados estaduais, federais e senadores, com quem o diálogo e as relações tendem a ser mais próximos.
Ela alerta, porém, para relações clientelistas, como o assédio de projetos sociais geridos e mantidos por políticos, em favelas, que ano a ano se apresentam como alternativa diante da ausência do Poder Público. Nesse tipo de atuação de organizações sociais, a pesquisadora vê fragmentação da mobilização por direitos.
[Durante as eleições], ONGs de políticos desempenham um papel nefasto, reeditam o clientelismo, o curral eleitoral, promovem a extrema direita, fomentam relação nebulosa com grupos armados locais, sobretudo, a milícia, e não contribuem para a formação dos sujeitos, a defesa dos direitos humanos.
Contribuir para organizar e mobilizar moradores na defesa de políticas públicas, inclusive em época de eleições, politizando o cotidiano da favela e o senso comum deveria ser o principal papel dessas organizações nos territórios, concluiu Eblin Farage.
*Nome fictício a pedido do entrevistado.