Competitividade do mercado de carbono moderniza conservação florestal - Foto: Agência Brasil
Competitividade do mercado de carbono moderniza conservação florestal - Foto: Agência Brasil
No município de Caracaraí, em Roraima, um modelo de conservação aliou inovação tecnológica e ações socioambientais para garantir longevidade e competitividade no mercado de carbono em uma área de 14 mil hectares.
A iniciativa, promovida pela empresa paulista de soluções para descarbonização ZEG (Zero Emission Goal), é uma alternativa produtiva para áreas florestais que ainda mantém vegetação nativa e que estão sob pressão do desmatamento legal, a principal fonte de emissão de gases do efeito estufa no Brasil.
O acúmulo desses gases na atmosfera é apontado como a causa para o aquecimento global, as mudanças climáticas e o aumento da recorrência de eventos climáticos extremos.
Segundo o diretor-presidente da ZEG, Carlos Jacob, a área pertence a um produtor rural de soja de Goiás que havia solicitado ao Estado a autorização para desmate legal.
O proprietário comprou essa área logo depois que Roraima passou por uma redução da reserva legal, diz.
Carlos Jacob, diretor presidente da ZEG - Floresta Amazônica conservada em Caracaraí Foto: Fabíola Sinimbú /Agência Brasil
O Código Florestal (Lei 12.651/2012) prevê que estados como Roraima, onde mais de 65% do território é formado por unidades de conservação, podem reduzir a reserva legal do bioma para 50% nas propriedades privadas, desde que haja um zoneamento ecológico econômico.
Na área onde o modelo de conservação foi implementado o bioma é amazônico e, portanto, a reserva legal seria de 80% dos 14 mil hectares. Mas, como o estado de Roraima concluiu o zoneamento ecológico-econômico em 2022, o proprietário passou a ter direito de desmatar metade da área para plantar soja.
A gente ficou sabendo que ele estava com esse pedido de supressão da área. Então, a gente contatou o produtor e no começo ele ficou bastante com dúvidas se esse era o caminho a seguir, mas ele acreditou no nosso projeto e decidiu embarcar, conta Jacob.
Modelo
A proposta apresentada pela empresa ao produtor rural previa um modelo inovador com investimentos em tecnologia de monitoramento e prevenção de incêndio, programa socioambiental voltado às comunidades coletoras de castanha-do-Pará do entorno e todo o processo de certificação dos estoques de carbono existentes.
Com a aprovação do proprietário, foi realizado um trabalho de segurança jurídica com a remontagem da cadeia dominial da propriedade, para evitar problemas sobre direito de posse. O proprietário também fez a cessão do direito real da superfície da área por 40 anos, o tempo de duração do contrato para comercialização dos estoques de carbono.
Segundo Carlos Jacob, essa iniciativa é decisiva para dar credibilidade aos investidores após o colapso do mercado de conservação, entre 2021 e 2023, causado por números de mitigação superestimados e comercialização de estoques em áreas sobrepostas a terras públicas.
Foi quando a gente entendeu que tinha que entrar no mercado de conservação para fazer diferente, diz Jacob.
Prevenção de incêndio
A área de conservação também recebeu uma torre de 60 metros, com um sistema de monitoramento capaz de identificar focos de incêndio e alertar a equipe em campo. O sistema conta com uma câmera associada a um programa de inteligência artificial.
A gente consegue saber em tempo recorde, dentro dos três minutos que a câmera leva para dar um giro de 360 graus. Chega para a gente um relatório, que mostra exatamente onde está acontecendo o foco de incêndio, e a gente coloca a equipe de campo para ir até o local, explica Cineone Silva, coordenador de operações de campo da ZEG.
Toda a equipe local, composta por 20 pessoas, passou por treinamento da brigada de incêndio interna. E como a capacidade de alcance da câmera vai além da área de conservação, duas áreas de assentamento vizinhas ao local também passaram por atualização de treinamento em suas brigadas comunitárias.
O principal risco, que a gente tem mais dificuldade de mitigar, é o incêndio. Então, a gente investiu bastante na infraestrutura de combate a incêndio, reforça Carlos Jacob.
Cineone Silva, coordenador de operação da ZEG - Floresta Amazônica conservada em Caracaraí Foto: Fabíola Sinimbú /Agência Brasil
Floresta em pé
Cerca de 36 famílias que vivem nos assentamentos vizinhos e que têm como fonte de renda a coleta da castanha-do-Pará puderam manter o extrativismo de subsistência.
Um desses moradores é João Inácio Neto, que aprendeu a coletar a castanha desde criança, com o pai, que também era extrativista.
Eu nasci e me criei nesse estado e, nos últimos 15 anos, eu vi a transformação com a entrada do agronegócio aqui na região, com o plantio de soja e mais veneno que a gente não tinha. Quando venderam esse lugar, a gente imaginou também que não ia mais poder coletar, conta.
João Inácio Neto, extrativista de castanha Foto: Fabíola Sinimbú /Agência Brasil
A conservação da área e a parceria com a comunidade local resultaram também no fortalecimento da atividade por meio de capacitação e apoio para a constituição da Associação Agroextrativista do Município de Caracaraí (Agrocar).
Em vez de trabalharem de forma isolada, as famílias produziram juntas na última safra, para obterem preços mais vantajosos com a pesagem e a venda coletiva.
Este ano, eu achei que melhorou bastante, na comparação com os outros anos. Eu achei mais organizado porque, antes, a gente vendia direto para o atravessador. Trabalhando junto, a gente já pode pensar em fazer uma venda melhor, diz a extrativista e secretária da Agrocar, Eliane de Sena.
Eliane de Sena, extrativista e secretária da Agrocar, extrativista de castanha Foto: Fabíola Sinimbú /Agência Brasil
Segundo Carlos Jacob, alcançando preços melhores, os extrativistas podem também melhorar a logística e o transporte da castanha-do-Pará, o que também permite o aproveitamento do ouriço.
Quando a gente tira o caminho tradicional de desenvolvimento, a gente precisa dar uma alternativa que, nesse caso, é a economia da floresta em pé, que passa por valorizar os bioativos e todos os produtos da floresta, diz o executivo.
Competitividade
Em todo o empreendimento, foram investidos um total de R$ 20 milhões, incluindo o processo de certificação dos estoques de carbono.
A gente usa a certificação da Verra, passa pela auditoria da Earthwood, que é uma empresa indiana, e, além dessas duas salvaguardas, a gente ainda tomou cuidado de pegar uma agência que vai certificar a qualidade, afirma Jacob.
Castanha-do-pará coletada na área de conservação em Caracaraí (RR) Foto: Fabíola Sinimbú /Agência Brasil
O estoque de carbono ainda não foi comercializado, mas a iniciativa já garantiu uma classificação AA pela agência BeZero.
É a primeira nota duplo A de um projeto de carbono na Amazônia, e a primeira do mundo também para um projeto de desmatamento evitado, conclui Jacob.