Cristina ressalta que, dessa forma, é possível valorizar o modo de produção de Orides. Cada livro dela foi muito pensado, a ordem dos poemas, as partes. Ela sempre começa com um poema que anuncia o tema daquele volume, e ela sempre termina com um poema que trata do silêncio. Isso fica mais claro quando vemos cada obra individualmente, explicou.
Para Ieda Lebensztayn, organizadora das novas edições, o poema Caleidoscópio, do livro Helianto, é central para entender a poesia e a vida de Orides. Etimologicamente, a palavra caleidoscópio é o olhar em busca de uma forma de beleza. Kalós, como na palavra caligrafia, significa belo; eidos é forma, figura; e skopeîn, como em telescópio, denota ver, observar, analisou.
Tal definição, afirmou Ieda, é a própria ideia de poesia para Orides, feita com imagens de espelhos, estrelas, luzes e silêncios, que se organizam artisticamente e sempre se recombinam em novos versos.
Como diz Orides em entrevista a Augusto Massi, Flávio Quintiliano e José Maria Cançado: E o maior bem possível foi sempre a poesia. No contexto da entrevista, o apego de Orides à liberdade de fazer poesia tem por contraparte sua situação social precária, que fala também das dificuldades enfrentadas por intelectuais num mundo mercadológico, e aponta a dimensão ética e política da arte ante os limites da realidade, mencionou.
Homenagem da Flip
Os rótulos e estereótipos atribuídos a Orides tiveram muita visibilidade, o que deixou o reconhecimento do valor literário de sua obra em segundo plano, por diversas vezes. O biógrafo da autora, Gustavo de Castro, faz essa crítica e relata que havia uma narrativa consolidada sobre Orides que deslocava o foco da poeta para uma personagem quase folclórica, descrita a partir de conflitos pessoais.
Cristina Yamazaki relatou que Orides tem uma história de vida de muita restrição e de dificuldades financeiras.
Isso acabou, às vezes, ganhando mais notoriedade do que a obra dela. Acho que isso atrapalhou [um reconhecimento mais amplo], inclusive, na época. Ser mulher, poeta, pobre, não se encaixar num padrão da sociedade: isso tudo prejudicou muito ela, o que não acontecia com os homens da literatura, disse a editora.
Para Cristina, a questão de gênero foi um fator que trouxe prejuízos a Orides, no contexto do machismo. Tem os poetas malditos [homens] que são admirados pela obra. No caso dela, num certo momento, a imprensa deu muito foco à mitologia em torno da vida dela e não pela obra.
A decisão da curadora Rita Palmeira de homenagear Orides Fontela na edição da Flip deste ano foi celebrada entre seus admiradores e profissionais que já conhecem profundamente seu trabalho.
Foi uma escolha muito bonita para tornar a Orides conhecida, porque ela é muito conhecida entre os poetas. É como se ela fosse a poeta entre os poetas, sabe? Tem muita gente que já escreveu em homenagem a Orides, ressaltou Cristina, citando O Nervo do Poema: Antologia para Orides Fontela (editora Relicário), que terá a segunda edição lançada durante a Flip.
Confira os eventos de lançamento:
- Quinta-feira (23), às 15h, na Casa Da Árvore - Lançamento de Pelos Olhos de Orides Fontela
Conversa com Augusto Massi, Cynthia Cruttenden | Mediação: Cristiane Tavares
- Quinta-feira (23), às 20h30, na Casa de Cultura - Ressonância Orides
Lançamento da reedição do livro O Nervo do Poema: Antologia para Orides Fontela (Relicário), com presença dos poetas Marília Garcia, Prisca Agustoni, Mônica de Aquino, Patrícia Lavelle, Paulo Henriques Britto, Tarso de Melo e Edimilson de Almeida Pereira
- Sexta-feira (24), às 19h, na Casa MinC - Reeditando Orides + Sarau Orides
Com Augusto Massi: as primeiras edições, Cristina Yamazaki: a reedição pela Hedra, Maíra Nassif: a recepção de Orides na Relicário, Patrícia Lavelle: poeta e pesquisadora de Orides | Mediação: Marília Garcia
- Sábado (25), às 12h, na Casa De Cultura - Poesia exemplar: Orides e Brecht
Conversa com Tercio Redondo e Ivan Marques, e celebração do lançamento de Conversas: Escritos e Entrevistas de Orides Fontela | Mediação: Paulo Pompermaier
A 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que vai até domingo (26), terá as mesas de conversa dentro da programação oficial, além de atividades gratuitas em casas parceiras e independentes, espalhadas pela cidade.