Agência Brasil: Como começou a investigação que resultou em Bandidos de Farda?
Juliana Dal Piva: Essa investigação é resultado de muitos anos trabalhando com documentos da ditadura militar. A minha dissertação de mestrado foi um estudo de caso sobre o desaparecimento do Rubens Paiva. Eu defendi em 2016, num período em que houve muitas descobertas importantes sobre o caso e também começaram as primeiras ações no Supremo Tribunal Federal questionando a Lei da Anistia.
Agência Brasil: O debate sobre memória e ditadura mudou nos últimos anos?
Juliana Dal Piva: Mudou muito. Eu acompanhei como repórter o julgamento sobre a revisão da Lei da Anistia, em 2014. Depois disso, o Brasil entrou em uma espécie de interrupção desse debate, especialmente com a ascensão da extrema direita entre 2014 e 2015. Houve um bloqueio dessa conversa pública sobre memória e justiça.
Agência Brasil: E qual o papel do audiovisual nesse processo?
Juliana Dal Piva: O audiovisual está ajudando a desinterditar essa conversa. Filmes como Ainda Estou Aqui fazem as pessoas compreenderem que a ditadura não foi uma guerra de dois lados. Era um pai dentro de casa, desarmado, que desaparece e deixa uma família destruída sem respostas. Qualquer pessoa consegue se colocar naquele lugar.
Agência Brasil: Por que o nome Bandidos de Farda?
Juliana Dal Piva: Porque os documentos revelam homens do Estado envolvidos diretamente em crimes gravíssimos. Não eram excessos isolados. Era uma estrutura organizada. Muitos desses agentes foram treinados para agir clandestinamente, matar, desaparecer com corpos e perseguir opositores políticos. Eles usavam a estrutura do Estado para cometer crimes.
Agência Brasil: O que mais chamou atenção nos arquivos?
Juliana Dal Piva: O grau de preparação. Os manuais de interrogatório, os cursos no exterior, a sofisticação da vigilância. Havia um planejamento muito estruturado para perseguir pessoas. E muitas vítimas nem participavam de organizações armadas. Os documentos desmontam completamente a narrativa de que havia uma guerra entre dois lados equivalentes.
Agência Brasil: O documentário mostra também violência sexual praticada pela repressão. Qual é a relevância?
Juliana Dal Piva: Sim. Existe um caso de estupro identificado na documentação. Isso é muito importante porque durante muito tempo essas violências ficaram escondidas ou minimizadas. A tortura sexual fazia parte da lógica de dominação da repressão.
Agência Brasil: Existe relação entre esse passado e o Brasil recente?
Juliana Dal Piva: Totalmente. O que vimos nos anos recentes foi uma caminhada ao autoritarismo. Tentativas de censura, perseguição, espionagem de jornalistas e magistrados, o uso político de estruturas de inteligência como a chamada Abin paralela [núcleo clandestino de espionagem que funcionou dentro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro para monitorar adversários políticos]. Estruturada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro. Existem consequências quando um país não enfrenta o próprio passado.
Agência Brasil: Como foi transformar a investigação em documentário?
Juliana Dal Piva: Foi uma experiência muito intensa. Eu já tinha feito podcast, reportagem investigativa, mas nunca uma produção audiovisual dessa dimensão. O ICL trabalha muito com vídeo e a gente quis construir uma narrativa acessível sem perder rigor histórico. Estou muito orgulhosa da equipe e do resultado.