O presidente da academia argentina reconhece a importância das plataformas neste momento de desinvestimento, quando os realizadores voltaram a "filmar "como há 30 anos, nos finais de semana, com amigos, ou por meio de crowdfunding (financiamento coletivo). Ainda assim, afirma, o modelo não é sustentável. Ele considera também que os direitos autorais das produções passam para as empresas, circulando menos na economia local, por exemplo.
Essa não é uma crítica negativa, as plataformas são um negócio [e não política pública]. O que chamamos de indústria hoje, é graças a elas, que são tocadas grandes produções, criados empregos, mantidos técnicos trabalhando, dando visibilidade aos produtos, e isso é ótimo. Porém, reitero, não pode ser a única alternativa para o cinema, analisou.
Outro perigo de colocar o cinema nacional nas mãos das plataformas, complementa o professor Santiago Marino, da Universidade de Santo André, em Buenos Aires, é permitir que elas sejam as únicas a decidir quais histórias podem ser contadas.
Ao comentar as análises de Findling, em entrevista à Agência Brasil, o especialista em políticas de comunicação alertou para o poder das plataformas de controlar o audiovisual, decidindo quais obras serão disponibilizadas nos catálogos ou não.
Batalha Cultural
Para Findling e representantes do setor audiovisual, o estrangulamento do setor faz parte de uma disputa ideológica alimentada pelo governo argentino. O governo está em uma batalha contra os que considera que pensam diferente dele, afirmou.
Existe a ideia de que quem trabalha com cultura pensa politicamente contra o governo, disse o presidente da academia de cinema. Eles têm dificuldade em entender que o cinema não se resume à cultura; se trata de trabalho, de economia, completou.
Nas contas da associação, para cada dólar investido na indústria audiovisual, o retorno é de dois ou três a mais, o que significa um investimento e não uma despesa.
Mesmo em meio à crise, o cinema argentino segue acumulando reconhecimento. No Platino, reconhecimento dado a produções audiovisuais da América Latina, Portugal e Espanha, a série de TV O Eternauta levou vários troféus, como melhor criador para o diretor Bruno Stagnaro e melhor ator para o renomado Ricardo Darín. Estrelando Homo Argentum, o ator Guillerme Francella recebeu um prêmio pelo conjunto da obra.
Todos esses premiados foram formados dentro de um sistema que existia graças ao INCAA, afirmou Findling, sobre a agência, cujas regras e financiamento foram modificados.
Sobrevivência
Com o fim do apoio estatal, os realizadores argentinos passaram a buscar também fazer coproduções internacionais, especialmente com os países da América Latina.
Esse é o caminho viável para todo o bloco. Com exceção do México, Brasil e da Colômbia, os demais países convivem com tensões, por assim dizer, avaliou Findling.
Em parceria, a Argentina também tem conseguido comercializar e exibir fora, uma vez que, entre as mudanças implementadas por Milei estão o fim da cota de telas nacionais e o próprio fechamento de salas mantidas com subsídios públicos.
Findling conta que, diante do enfraquecimento dos órgãos nacionais, a Academia de Cinema da Argentina passou a ocupar papel mais ativo e vem negociando espaços junto a embaixadas e festivais. Em Málaga, na Espanha, contou, a associação apresentou filmes e projetos. A próxima parceria deve ser com o Festival de Cinema de Rotterdam, na Holanda, em 2027. "Estamos negociando a exibição de três filmes".
Agora não temos mais dinheiro para dar, o que temos é talento, garantiu o produtor. Nas coproduções, a Argentina, explicou, entra com técnicos, atores, atrizes, música, pós-produção e quem aporta o dinheiro fornece o resto, explicou.
Apesar do cenário, o dirigente avalia que, assim como no Brasil, quando o governo de Jair Bolsonaro congelou fundos e editais, a situação é temporária. Pode levar tempo, mas acredito que o cinema argentino vai voltar. É a nossa identidade, concluiu.
*A repórter viajou a convite dos Prêmios Platino Xcaret.