Estamos falando de praticamente 15 anos de atuação da universidade com o movimento social e nós fomos ali fazendo um processo de análise a partir da ação direta da violência dos agentes do Estado, mas também fomos vendo esse processo todo de pesquisa junto com os familiares.
O projeto reúne também mães de outros estados brasileiros, que, assim como as Mães de Maio, são vítimas de violências provocadas pelo Estado. Infelizmente hoje a maioria das mães que compõem o movimento das Mães de Maio são essas mães novas que estão chegando. As outras foram falecendo pela idade ou por adoecimento, diz a pesquisadora do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf) da Unifesp Aline Lúcia de Rocco Gomes, que trabalha com o tema da violência estatal.
Juntas, essas mães ajudam a universidade a produzir conhecimento, materiais e protocolos para estudar e combater a violência de Estado. A gente foi vendo como que essas famílias ficaram à mercê e sem informação. Muitas famílias nem tinham noção do que era um boletim de ocorrência. Nunca tiveram acesso a isso, destaca a pesquisadora.
Dentro desse projeto, as mães deixaram de ser colaboradoras e passaram a pesquisar suas próprias histórias de violência. A gente também foi fazendo um processo de abrir um horizonte dentro da universidade que é reconhecer essas mães como pesquisadoras sociais. A nossa universidade foi a primeira a fazer isso. Nós reconhecemos que esses familiares têm um conhecimento que, sem eles, a universidade não acessaria, observa a reitora. Há um reconhecimento social como pesquisadora e também um aporte de recurso porque elas [as mães] precisam sobreviver.
A fundadora do movimento Mães de Maio é uma dessas pesquisadoras. Eu ganhei a carteirinha de pesquisadora e sou pesquisadora do Caaf hoje em dia porque eu tive que pesquisar tudo o que aconteceu com o meu filho, relata Débora.
Isso ganhou ainda mais importância quando ela começou a perceber que sua história estava sendo alterada por jornalistas e pesquisadores.
Daí eu pensei: De hoje em diante a gente não é mais laboratório. A minha história ela não se tira, a gente não coloca nem uma vírgula nem acrescenta um ponto. A nossa história é real. A gente conta sempre a mesma história porque não tem outra história para a gente contar, reforça Débora Maria da Silva.
Para o diretor da Conectas, isso demonstra o poder transformador dessas mulheres. O meio acadêmico conseguiu, em alguma medida, valorizar e reconhecer o trabalho das mães. As mães hoje são capazes de dar aula em qualquer universidade sobre o que deve envolver o trabalho de uma perícia. Elas sabem exatamente identificar os indícios de uma execução sumária e identificar todas as falhas que o Estado tem nas suas apurações. Elas conseguem converter todo esse conhecimento em demandas por políticas públicas". destaca o advogado.
"Isso é algo que é muito transformador até do ponto de vista da construção do Estado de Direito e da democracia, acrescenta Gabriel de Carvalho Sampaio.
Para relembrar a história dos Crimes de Maio e discutir seus impactos na atualidade, a TV Brasil preparou uma edição especial do programa Caminhos da Reportagem. O episódio Crimes de Maio, 20 anos sem Respostas foi ao ar na noite desta segunda-feira (11). Confira aqui a íntegra.