Março de luta: ações intensificam combate à violência contra a mulher
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O governo federal iniciou, nesta semana, as mobilizações de luta que marcam todo o mês de março pelo Dia Internacional das Mulheres, celebrado no dia 8.
Em 2026, o contexto mais evidenciado é o combate à violência contra a mulher, diante dos índices crescentes de feminicídios.
O ato inaugural foi organizado pelo Ministério das Mulheres, no domingo (1º), em memória da jovem Tainara Souza Santos, de 31 anos, que morreu em dezembro do ano passado, dias após ser atropelada pelo ex-companheiro, Douglas Alves da Silva, e ser arrastada por mais de 1 quilômetro na Marginal Tietê, na zona norte da cidade de São Paulo, ao ficar presa ao carro dele.
Nesta quarta-feira (4), o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, conhecido como Conselhão, realizou o Seminário Brasil pela Vida das Meninas e Mulheres, como parte das atividades do Pacto Brasil entre os Três Poderes para Enfrentamento do Feminicídio.
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Os veículos da comunicação pública da Empresa Brasil de Comunicação (EBC) Agência Brasil, TV Brasil e Rádio Nacional entrevistaram a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, para entender melhor os principais desafios do país para pôr fim à violência contra as mulheres e para a promoção da igualdade de gênero.
Confira os principais trechos da entrevista:
Agência Brasil: Em 2025, o Brasil registrou o número recorde de 1.548 feminicídios, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Em média, são quatro mulheres por dia e sabemos que as estatísticas são subnotificadas. O que falta para essas mulheres serem salvas e para terem o direito de continuar existindo?
Ministra Márcia Lopes: Sabemos que os processos de submissão, de subalternidade, de inferioridade, de discriminação das mulheres têm uma raiz estrutural. Desde a continuidade das várias formas da apropriação do corpo da mulher, da vida dela pelos homens e parceiros. O patriarcado cresce em todo o mundo e, com isso, o machismo, a misoginia.
Agência Brasil: Vivemos tempos mais difíceis?
Ministra Márcia Lopes: Recentemente, de 2016 a 2022, vivemos um processo total de destruição da democracia, das relações, de absoluto desrespeito à vida das mulheres. A intolerância total, a impaciência, valores [retrocederam] e certas atitudes passaram a ser cotidianas, normalizadas. Isso é uma porta aberta para todas as violências, inclusive na própria relação afetiva, por exemplo, de uma paquera entre os adolescentes.
Agência Brasil: Quais retrocessos foram observados?
Ministra Márcia Lopes: O que aconteceu no governo anterior foi péssimo, nós retrocedemos, porque aquilo que tínhamos avançado e feito para que os conselhos funcionassem, as conferências falassem, que tivessem as denúncias, que os serviços fossem ampliados, que a gente tivesse escala nacional retrocedeu. Todas nós adoecemos.
A partir de 2023, essa reconstrução que o presidente Lula assumiu não é simples. Desde então, voltamos ao processo de acordo, de negociação, de entendimento, de boa vontade.
Agência Brasil: Como reagir às violências que não recuam?
Ministra Márcia Lopes: Nós não podemos admitir nenhum tipo de retrocesso em relação às conquistas das mulheres. Esse é um embate permanente, porque ao mesmo tempo em que as mulheres passam a ser a comandante do avião, por exemplo, ou chegam à Presidência da República ou a qualquer outro cargo, por outro lado, isso ainda incomoda muitos homens que ficam indignados. Há um ressentimento mesmo.
Agência Brasil: A Lei Maria da Penha (nº 11.340/2006) estabelece medidas protetivas de urgência para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. No entanto, a falta ou a demora na concessão de medidas protetivas de urgência expõe as vítimas a riscos severos. Mesmo as mulheres que contam com esses recursos concedidos pelo Judiciário não estão totalmente protegidas. Porque os agressores ignoram o monitoramento de tornozeleiras eletrônicas e voltam a representar uma ameaça; rondam o lar ou o trabalho da vítima; e praticam violências. A falha nesse ponto reforça a sensação de impunidade?
Ministra Márcia Lopes: Depois da denúncia, há municípios em que a medida protetiva é concedida em quatro horas. Mas há lugares que demoram até 20 dias e isso interfere e custa a vida de mulheres. Comentaram comigo em uma localidade que, com a Patrulha Maria da Penha, não houve nenhum feminicídio com mulheres com medidas protetivas em execução.
Nós precisamos de delegacias especializadas que funcionem nos fins de semana, nos feriados, justamente quando mais acontecem as situações de violência. Às vezes, as mulheres vão às delegacias registrar queixa, os próprios agentes ou delegados perguntam: "Mas, você tem certeza que você quer denunciar? Isso não vai te prejudicar?
Nós temos lacunas: precisamos de muito mais equipes da Patrulha Maria da Penha nos municípios, precisamos do sistema de justiça e de quem vai fazer o julgamento, que cumpra o protocolo de gênero.
Agência Brasil: Há cerca de um mês, os Três Poderes assinaram o Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio. Este compromisso representa a compreensão de que a violência contra mulheres exige ação contínua e conjunta, responsabilidade institucional e mudança de comportamentos?
Ministra Márcia Lopes: Nós temos leis, resoluções e regras importantíssimas, mas faltam, de fato, escala e uma postura de responsabilidade de todos os sistemas. Sem essa integração entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, a gente não caminha. Por isso, esse Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio é tão importante e decisivo.
Agora, estamos fazendo esse mapeamento para saber qual é o fluxo, para onde a mulher tem que ser encaminhada, o que compete a cada área fazer nas localidades. Em cada estado é diferente.