Listas de boicote viram caça a eleitores de Lula e chegam ao MP em Ribeirão
Entidades do comércio se posicionam e condenam medida; promotor defende apuração criminal e cientista político fala em patologia social
, atualizado
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Começaram a circular,desde a eleição e com mais intensidade nos últimos dias, em grupos de WhatsApp e redes sociais, listas com nomes de empresas, comerciantes e prestadores de serviço de Ribeirão Preto identificados — nem sempre com razão — como apoiadores do PT. As mensagens pedem que o consumidor não compre, não contrate e não faça negócio com os estabelecimentos citados. Em alguns casos, a convocação vai além do boicote e alcança a demissão de empregados e a recusa de contratação de profissionais.
Imagens que circulam nas redes mostram um dos grupos batizado "Lista de empresários Petistas-RP", com 432 membros. O caso chegou ao Ministério Público. O promotor Carlos Cezar Barbosa afirmou que a conduta se enquadra como crime de injúria. "Injúria porque aquele que fez a divulgação, aquele que divulgou a lista e aquele que compartilhou a lista está se colocando de uma forma supremacista sobre aquele que está figurando na lista", disse.
O promotor sustentou ainda que o prejuízo tem consequência econômica e cabe indenização. "É objeto de indenização por danos materiais. Ele sofreu uma perda de receita por conta de figurar numa lista dessa natureza", afirmou. Segundo ele, a Polícia Civil dispõe de recursos tecnológicos para identificar a origem das mensagens e localizar quem as produziu.
EFEITOS
O efeito foi imediato. "É uma tentativa de intimidação gigantesca, porque a ideia dessa lista é fazer com que a pessoa que pensa diferente de você se cale, e isso não pode ser aceito de forma alguma", declarou um dos nomeados, que afirma ter perdido o emprego recentemente por pressão política e pediu para não ser identificado.
Entidades do setor comercial, a Acirp e o Sincovarp emitiram notas oficiais de repúdio à discriminação por razões político-partidárias. O prefeito Ricardo Silva (PSD) também criticou a iniciativa e observou que parte dos comerciantes listados sequer havia se manifestado politicamente.
MOVIMENTO
O movimento não é local. O Ministério do Trabalho e Emprego registrou 530 denúncias de assédio eleitoral até a tarde de terça-feira (27), o equivalente a 21% de tudo o que o órgão recebeu em 2026. "O empresário é dono do negócio, e não do voto do seu empregado. Demitir trabalhadores por sua convicção política é ilegal e será alvo de atuação do MPT perante a Justiça do Trabalho", afirmou o procurador-geral do Trabalho, Gláucio Araújo de Oliveira.
O que está em jogo, dizem as entidades, não é o direito de discordar nem o de deixar de comprar de quem quiser. "O caso será investigado e deve ser denunciado", afirma Barboza. Quem sofrer qualquer tipo de intimidação pode procurar a Polícia Civil e o Ministério Público.