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Stanley Kubrick, em 1999, entregou De Olhos Bem Fechados — um filme perturbador em que o médico Bill Harford tenta se infiltrar numa mansão onde a entrada exige uma senha: Fidelio. Bill não foi convidado; apenas descobre a palavra e se arrisca. Ela não significa só "quem sabe entra", mas "quem foi autorizado a saber existe". E o ritual, ali, não é encenação: é liturgia. Há um mundo acima do mundo, com regras próprias que não são simbólicas — são práticas. Kubrick atira essa ironia na nossa cara: um bilhete passado por baixo da porta, confissão cifrada sobre o que realmente move o poder moderno.
O problema é que, por trás da senha e das máscaras, mora a velha engrenagem do contrato que prometeu proteção em troca de obediência. Idealistas ou liberais tentaram nos convencer que a soberania nasce do povo; mas o Estado moderno nunca deixou de ser truculento: aprendeu a ser polido, técnico, inevitável.
Maquiavel, o profeta do avesso, já tinha avisado: uma vez dentro do labirinto, a regra muda. O príncipe — leia-se o Estado — obedece a uma lógica própria, uma inversão fria da moral que jurava domesticá-lo. Onde havia Deus, entrou a natureza humana, o que ele chamava de realismo. Onde havia Providência, entrou a fortuna, roleta que premia os espertos. Onde havia Virtude, entrou a virtù, a capacidade de parecer virtuoso enquanto se pratica o vício. Onde havia Verdade, entrou a eficácia, álibi dos canalhas. O resultado é sempre o mesmo: um Estado absoluto, sem freio moral, devorando Igreja, comunidades, associações, tradições.
Mas há algo mais sombrio. Os cultos a Moloch, Baal e o Minotauro não morreram; trocaram o bronze incandescente pelo terno de grife e pelo sigilo. Moloch exigia crianças em altares de fogo; Baal canalizava a violência através de rituais de fertilidade e sacrifício humano; o Minotauro, no centro do labirinto, devorava jovens enviados como tributo. Não era religião inocente: era política crua. Sacrifício em troca de ordem. Pavor em troca de estabilidade. E o Estado moderno? Continua exigindo tributo, só que sem altares visíveis. Jovens são moídos em guerras em nome da "defesa nacional". Crianças desaparecem no labirinto do tráfico humano, e as instituições que juram protegê-las preferem discutir estatísticas, criar comissões, emitir notas oficiais.
O Estado-babá, versão secularizada de Baal, prometeu embalar o cidadão em troca da alma. E Epstein — sacerdote do submundo — foi o instrumento perfeito dessa ressurreição maquiavélica. Utilizava a fraqueza humana como moeda: o vício, a luxúria, a perversão. Suas festas funcionavam como máquinas de chantagem: presidentes, príncipes, bilionários eram colocados em situações comprometedoras, fotografados, registrados. Uma vez dentro, não podiam sair sem se auto-incriminar. O silêncio virava prisão. Epstein não precisava de ameaças explícitas; a própria vergonha e o medo faziam o trabalho. Eis o que liga o caso ao coração do Estado moderno: a suspeita persistente de que Epstein foi cooptado — ou mesmo membro — de agências secretas. Porque ali funcionava a virtù pura: a capacidade de manter os poderosos prisioneiros de seus próprios desejos, transformando-os em reféns permanentes de um sistema que vivia de segredos sujos. Se há um poder que vive de informação, vive também de chantagem. Nada é mais eficaz do que tornar o poderoso refém de si mesmo.
O labirinto do Minotauro agora é uma teia invisível de cumplicidade, corrupção e silêncio. A engrenagem funciona porque o medo e o dinheiro compram testemunhas e juízes. E Kubrick? O homem que nos soprou a senha? Quatro dias depois de entregar a versão final do filme, seu coração parou. Um infarto fulminante. A morte súbita é a censura perfeita: não faz barulho, não deixa bilhete, não pede desculpas. No filme, Bill Harford recebe um envelope com o aviso: "Desista de suas perguntas. Esperamos que seja o suficiente." A mensagem não era para ele. Era para nós. Kubrick arrancou do Minotauro a máscara dourada; mas o círculo mágico não se desfez — a roda apenas se fechou, as velas foram reacendidas, e o culto continuou, ainda mais zeloso com uma lei simples: entrar é possível; sair, jamais.
*Professor e cientista político