A maldição do eterno sorriso

É uma semidoideira falar isso, mas, em alguns momentos, para a pessoa com deficiência, pode ser uma espécie de maldição! Tenho pensado bastante nisso ao longo desses quase quarenta anos e, CALMA! Não estou dizendo que ser alegre é ruim! NÃO COMI COCÔ!

, atualizado

Compartilhar notícia

O meu ponto, no qual bato ao longo dos meus anos tentando ter uma vida social e profissional saudável, é que a sociedade tenta, de todas as maneiras, te rotular como uma coisa só e, isso sim, é um vírus assustador que ataca todo mundo que possui uma limitação, seja ela física como a minha ou qualquer outra.

Falando de mim, claro que agradeço todos os dias por ter, ao longo do tempo, tido a força mental de lidar "bem" com uma condição que nasceu comigo. Sempre procurei deixar cristalino para mim, principalmente, que a minha condição física não é culpa de ninguém, que eu fui premiado às avessas e é isso.

Lógico que, com o passar do tempo, fui desenvolvendo ferramentas para lidar com o ônus evidente que a deficiência causou em mim. Dentre elas, a menos "cancelável" e a que posso escrever nesse texto sem que um(a) psiquiatra me ligue depois dele publicado, é o futebol.

Sempre que eu não estou legal, procuro ver um jogo qualquer, vou comentando, principalmente com meu pai, com meus amigos e, quando vejo aquela "bad", na imensa maioria das vezes, passa. E aqui, faço um agradecimento público a Tiago di Tulio Freitas, João Fagiolo e Paulo Bahia. Galera, quando eu fico discordando de vocês e até de mim, é porque eu "preciso render o bloco" e desanuviar minha cabeça.

Só que tem momentos em que essas artimanhas não funcionam. Existem dias em que eu acordo com a exata noção do tamanho da porcaria que é ser deficiente. Dias em que você já desce da cama literalmente cansado. Ter uma limitação te impõe uma rotina da qual nunca vai se livrar. Já pensaram no quanto isso é muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuito chato?

É natural que existam momentos em que se está de saco cheio, triste por viver coisas que não se queria, em absoluto, mas, fundamentalmente, por não conseguir — ou por ter bastante dificuldade — viver situações corriqueiras para a enorme parcela da população.

O que me mata é as pessoas acharem o cúmulo eu passar por isso só porque tento ser feliz. Ser feliz não é não ter tristeza em alguns momentos. Afinal, como disse certa vez Roberto Bolaños: "Herói não é aquele que não sente medo, mas aquele que sabe enfrentá-lo."

*comediante, é também pessoa com deficiência