Compartilhar notícia
Ribeirão Preto voltou a assistir, mais uma vez, ao mesmo roteiro previsível: chuva forte, córregos transbordando, avenidas transformadas em rios, carros ilhados, comerciantes contabilizando prejuízos e famílias limpando lama dentro de casa. A cada temporal, a cidade parece surpreendida por algo que, há anos, deixou de ser exceção e passou a integrar o calendário.
Não se trata de fenômeno inesperado. Os episódios de enchentes são recorrentes, mapeados, conhecidos. Pontos críticos como as marginais e regiões próximas a cursos d'água já foram amplamente diagnosticados por técnicos e relatórios. O que falta não é informação — é ação concreta, planejamento consistente e execução continuada de obras estruturais.
Macrodrenagem não rende fotografia vistosa nem cabe em vídeo de trinta segundos. Exige projeto, recurso, cronograma e, sobretudo, prioridade política. Desassoreamento periódico, ampliação de galerias, contenção de margens, fiscalização de ocupações irregulares e combate à impermeabilização descontrolada do solo são medidas técnicas que precisam sair do papel. Sem isso, cada verão será apenas a repetição do anterior, com danos cumulativos.
A cidade cresceu, verticalizou-se, asfaltou-se. O solo que antes absorvia água hoje a repele. O resultado é óbvio: a água corre mais rápido, em maior volume, e encontra gargalos antigos. Quando o poder público não acompanha essa transformação com infraestrutura adequada, transfere o custo para a população — que paga duas vezes: em impostos e em prejuízo.
É preciso também romper com a lógica reativa. Não basta mobilizar equipes após o estrago consumado. Defesa Civil, secretarias e forças de apoio cumprem papel importante no socorro imediato, mas gestão pública não pode se resumir a administrar crises. Governar é prevenir.
Enquanto isso, o debate público se dispersa em transmissões ao vivo, postagens indignadas e troca de acusações nas redes sociais. A internet amplifica imagens dramáticas, mas não constrói piscinões, não amplia galerias e não reorganiza o uso do solo. Curtidas não drenam água.
Ribeirão precisa de menos discurso e mais obra. Menos explicação e mais execução. A chuva não é novidade. A omissão também não pode continuar sendo. Redes sociais não resolvem enchente — planejamento e ação, sim.