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A possível crise envolvendo o contrato da coleta de lixo em Ribeirão Preto expõe, mais uma vez, uma fragilidade crônica da administração pública municipal: a incapacidade de antecipar problemas em serviços essenciais e agir com firmeza, transparência e responsabilidade quando eles surgem. Trata-se de um padrão que se repete e que custa caro à cidade.
O impasse entre os sindicatos da categoria e a Estre Ambiental, agora agravado por ameaça de greve de trabalhadores e queixas recorrentes sobre a qualidade da operação, está longe de ser um episódio pontual. É, na verdade, o resultado direto de um modelo contratual mal concebido, historicamente mal fiscalizado e politicamente tratado com excessiva complacência. Não por acaso, o contrato do lixo em Ribeirão Preto já foi rejeitado pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE) e também figurou em investigações que levantaram suspeitas de esquemas de corrupção, lançando sombras persistentes sobre sua legalidade e moralidade.
É preciso deixar claro: o problema não é novo. Ele atravessa gestões, ultrapassa governos e se arrasta há pelo menos duas décadas, sempre reaparecendo sob diferentes formas, mas com a mesma essência — a fragilidade do controle público sobre um dos contratos mais caros e sensíveis do município.
A coleta de resíduos não é um serviço acessório. É uma atividade vital à saúde pública, ao meio ambiente e à dignidade urbana. Quando motoristas e coletores denunciam condições precárias de trabalho e a população percebe falhas na regularidade do serviço, o problema deixa de ser meramente trabalhista ou empresarial e assume dimensão institucional. Cabe ao poder público fiscalizar de forma permanente, exigir cumprimento de metas, aplicar sanções quando necessário e, sobretudo, garantir que contratos milionários sejam executados exatamente como foram pactuados.
Evidentemente, tanto a Estre quanto os sindicatos possuem pautas próprias e legítimas. A empresa busca retorno financeiro, os trabalhadores lutam por melhores salários e condições de trabalho. Nada disso é ilegítimo. O que é inadmissível é que, mais uma vez, a população seja colocada como refém de disputas previsíveis, agravadas pela omissão do poder concedente.
O que se observa, infelizmente, é uma Prefeitura reativa, que administra crises em vez de preveni-las, e uma Câmara Municipal que, salvo raras exceções, só se movimenta quando o problema já explodiu e virou manchete. Ribeirão Preto precisa de mais do que notificações protocolares, reuniões emergenciais e discursos de ocasião. Precisa de gestão eficiente, transparência real e coragem administrativa para enfrentar contratos problemáticos.
No lixo, como em tantas outras áreas da cidade, a conta da omissão, da leniência e da falta de planejamento continua sendo paga pela população.