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A recente movimentação em torno de um pedido de cassação por quebra de decoro contra o vereador André Rodini (Novo) diz menos sobre a gravidade do episódio em si e mais sobre as distorções de prioridade que se tornaram rotina na Câmara de Ribeirão Preto.
Não se trata de defender o teor da fala atribuída ao parlamentar — infeliz, grosseira e absolutamente dispensável. Trata-se, isto sim, de questionar a relevância institucional que se tentou atribuir a um comentário feito em ambiente privado, dirigido a um assessor, sem publicidade, sem destinatário específico e sem a intenção de atingir um grupo determinado da sociedade.
Transformar esse episódio em uma crise política formal, com pedido de cassação, soa desproporcional. E, em certa medida, infantiliza o debate público. O vereador não fez um pronunciamento em plenário, não utilizou canais oficiais para disseminar preconceito, nem promoveu discurso de ódio de forma deliberada. O comentário veio à tona por meio de um vazamento interno — fato que, por si só, revela uma quebra grave de confiança na relação entre parlamentar e assessoria.
Aliás, esse aspecto parece ter sido convenientemente ignorado. É legítimo questionar por que uma conversa interna foi exposta e quem se beneficia politicamente com esse vazamento. A relação entre um vereador e seus assessores é, antes de tudo, de confiança. Quando isso se rompe, o problema deixa de ser apenas moral e passa a ser estrutural.
Há ainda outro ponto que merece reflexão: a seletividade da indignação. Os mesmos [e incluímos aqui a imprensa] que agora se mobilizam com discursos inflamados já foram complacentes — ou francamente omissos — diante de casos muito mais graves envolvendo uso indevido de recursos públicos, violência doméstica, dependência química em exercício de mandato e esquemas de rachadinha. Não foi nesses momentos que se viu tamanha pressa ou rigor institucional.
Nada disso transforma a fala do vereador em algo aceitável. Mas tampouco a eleva à condição de escândalo político de primeira grandeza. O excesso de holofotes, nesse caso, contribui mais para o espetáculo do que para o aprimoramento da vida pública.
Rodini, aliás, nunca escondeu suas contradições. É um parlamentar capaz de atuar com firmeza na fiscalização do Executivo, ao mesmo tempo em que sustenta posições conservadoras e, por vezes, retrógradas. Já demonstrou isso tanto em iniciativas positivas quanto em episódios que flertam com moralismos e visões higienistas. Nada disso é novidade.
O mais preocupante, no entanto, é constatar que esse perfil está longe de ser exceção na Câmara Municipal. O episódio acaba funcionando como um espelho incômodo de um Legislativo que frequentemente se ocupa do acessório, enquanto questões centrais da cidade seguem sem resposta.
Quando comentários privados ganham mais relevância do que políticas públicas, fiscalização efetiva e responsabilidade institucional, algo está fora do lugar. E não é apenas um vereador. É o debate público como um todo.