O Sexo dos Anjos da Escola Anísio Teixeira

A triste invisibilidade da aluna trans que apenas necessita de utilizar o banheiro da escola

, atualizado

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Revista Psique Ciência & Vida nº 02 fls 59 _ Imagem associada a visão de um paciente com esquisofrenia
Revista Psique Ciência & Vida nº 02 fls 59 _ Imagem associada a visão de um paciente com esquisofrenia - Foto: Reprodução Imagem Revista Psique
Revista Psique Ciência & Vida nº 02 fls 59 _ Imagem associada a visão de um paciente com esquisofrenia - Foto: Reprodução Imagem Revista Psique

A polêmica de uma aluna trans passou a usar o banheiro feminino na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Anísio Teixeira, em Ribeirão Preto. O que deveria ter sido tratado com discrição, mediação e responsabilidade institucional acabou ganhando dimensão pública depois da intervenção de um influenciador e depois de agentes políticos que levaram o caso para o campo da exposição, da disputa de narrativa e do espetáculo midiático. Desde então, a estudante, mesmo longe da captação de imagens passou a viver desconforto crescente, a ponto de não querer mais ir à escola e também demonstrar desejo de se afastar do lugar onde vive, já que virou referência involuntária de uma controvérsia que jamais deveria ter saído dos limites do ambiente escolar.


É uma pena ver uma discussão tão delicada ser arrastada para o terreno mais raso, mais cruel e mais barulhento da política local. O que deveria ser tratado com cuidado, descrição, proteção institucional e responsabilidade emocional acabou transformado em espetáculo público, em disputa de narrativa e em munição para uma guerra moral que, no fim, não protege ninguém e ainda produz vítimas muito concretas.

A expressão “discutir o sexo dos anjos” cabe aqui com amarga precisão. Ela fala de um debate abstrato, pomposo e improdutivo, que se afasta do essencial enquanto finge tratar de algo profundo. Na Escola Municipal de Ensino Fundamental Professor Anísio Teixeira, em Ribeirão Preto, a controvérsia sobre uma aluna trans e o uso do banheiro foi retirada do campo da prudência pedagógica e jogada no palco da exibição pública, onde a complexidade desaparece e sobra apenas o ruído.


O ruído, nesse caso, não veio apenas de quem tentou capitalizar politicamente a situação. Seria confortável reduzir tudo a uma disputa entre um influenciador agentes políticos provocando engajamento da massa conservadora, assim como o embate com o movimento progressistas cujo os interessados na visibilidade política, mas isso seria pouco. A tragédia do episódio também passa pela omissão de quem deveria ter sido a primeira muralha de proteção da escola e da estudante. A Secretaria Municipal de Educação, limitou-se a dizer que a unidade seguia a legislação e as diretrizes vigentes, resposta burocrática demais para um caso que exigia posição pública firme em defesa da proteção integral da criança e da preservação do ambiente escolar, já a direção da escola, apesar de ter defendido a escola e a aluna, deu palco para essa disputa e não só palco, mas promoveu uma gincana maniqueísta, quando deveria agir com discrição.


Quando um tema tão sensível rompe os limites da mediação responsável e vira cena pública, alguma proteção institucional falhou. Não se trata de atribuir culpas simplistas, mas de reconhecer que a escola deveria ter sido um espaço de contenção, acolhimento e sigilo, e não o cenário onde se consolidou uma controvérsia de alto potencial traumático social.


O mais grave é que, enquanto adultos disputam versões, protagonismos e convicções, a vida concreta de uma estudante vai sendo marcada mais do que já é natural. Conforme o contexto relatado, a menina já não quer mais ir à escola e já não quer mais continuar vivendo no lugar onde foi transformada em referência de um caso público. Ainda que seu nome não tenha sido formalmente exposto, a fabricação social do episódio bastou para colocá-la no centro de olhares, comentários, especulações e desconfortos que nenhum menor de idade deveria suportar. Em cidade, bairro e comunidade escolar, nem sempre é preciso dizer o nome de alguém para isolá-la; basta produzir um enredo identificável.


É por isso que a imagem da revista Psiquê é tão poderosa como chave interpretativa. O homem está submerso, mas segura um guarda-chuva; a caravela navega onde não deveria; a escada simbólica nas crenças promete saída, mas pode levar apenas a mais um giro em falso; os instrumentos espalhados sugerem uma música impossível, um concerto desfeito em ruídos de apenas um instrumento e som. Essa composição de incoerências traduz bem o ambiente em que a política se perde quando abandona o real e passa a operar por símbolos, medos e projeções.


O guarda-chuva, nessa metáfora, é a proteção fingida. Todos dizem agir em nome de crianças, da família, da moral, da ordem ou da lei, mas a consequência concreta é exatamente o contrário do cuidado. A caravela submersa é a institucionalidade deslocada, funcionando fora do seu elemento, como se ainda houvesse normalidade em um cenário já tomado pela distorção. A escada é a ilusão de superioridade ética, o gesto de quem imagina estar subindo a um plano mais alto de razão, quando na verdade apenas circula dentro da própria bolha de certezas.


A política, então, entra num estado de delírio organizado. Tudo parece muito sério, muito grave, muito solene, mas quase nada se volta ao ponto central: havia uma criança ou adolescente que precisava ser protegida. Em vez disso, o caso foi recoberto por slogans, indignações performáticas, fiscalizações teatralizadas e um debate que rapidamente descambou para o folclore moral. A essa altura, a discussão já tangencia o ridículo da “loira do banheiro”, essa velha lenda escolar que vive menos de fatos do que de medo, repetição e imaginação coletiva. Quando o debate público sobre uma aluna trans se aproxima de uma lógica lendária, é sinal de que a cidade já trocou a responsabilidade pelo boato.


E aqui entra a psicologia social do caso. Comunidades ansiosas, polarizadas e treinadas para reagir por reflexo tendem a transformar diferenças em ameaças simbólicas. Em vez de mediação, procuram inimigos. Em vez de compreender, projetam. Em vez de proteger o vulnerável, usam o vulnerável como catalisador dos seus próprios medos. O banheiro, nesse cenário, deixa de ser apenas um espaço físico e se torna um totem político, um dispositivo de pânico, uma peça de mobilização emocional. E o “sexo dos trans”, jogado nesse ambiente, passa a ocupar o lugar que já foi “o sexo dos anjos”: uma pseudoquestão elevada a centro do debate para que o essencial permaneça intocado.


O essencial, no entanto, continua ali, duro e incontornável. Houve exposição do ambiente escolar. Houve circulação pública de um tema envolvendo uma aluna trans menor de idade. Houve necessidade de atuação do Ministério Público e Poder Judiciário para apurar possível homotransfobia e possível violação ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Houve também decisão judicial para barrar a entrada de um influenciador em escolas municipais sem autorização prévia, após filmagens e questionamentos na unidade. Nada disso fala de normalidade democrática. Tudo isso fala de um limite já ultrapassado.


É justamente por isso que o caso não pode ser tratado como escândalo midiático passageiro ou como episódio periférico da guerra cultural. Ele diz muito sobre a qualidade moral da vida pública em Ribeirão Preto. Diz sobre quem transforma escola em palanque. Diz sobre quem silencia quando deveria proteger. Diz sobre quem abre espaço demais para um debate que exigia contenção. Diz sobre a facilidade com que o poder, em suas várias camadas, terceiriza para uma criança o peso de disputas que os adultos não conseguem resolver com civilidade.


No fim, o que resta é a constatação mais triste: foi uma pena envolver essa discussão dessa maneira. Foi uma pena ver uma questão sensível ser tratada como troféu ideológico. Foi uma pena ver que não apenas os exploradores mais óbvios da controvérsia agiram com irresponsabilidade, mas também que faltou à Secretaria Municipal de Educação uma posição mais nítida e faltou à direção escolar o zelo necessário para impedir que a escola virasse palco. Quando todos falham um pouco, quem paga o preço inteiro é sempre o mais frágil.